8:00 | Segunda-feira, 21 de Abr de 2008
Era o palpite de Napoleão. O Império do Meio começou a espreguiçar-se há anos mas meteram-se agora ao barulho militantes dos direitos do homem que nada sabem do passado, conjecturam mal o futuro, se acham moralmente superiores a toda a gente e querem impor as suas regras morais, já e por toda a parte; desta vez no Tibete. Os Jogos Olímpicos deram-lhes a deixa ideal. Aproveitam o alvo fácil da chama olímpica para arruaças telegénicas (que ofendem, de resto, direitos alheios), fazem chantagem sobre dirigentes ocidentais que má consciência e cobardia reduzem a alvos fáceis e contam com a sensibilidade e a destreza de elefante solto em loja de loiça com que Pequim tem tratado sempre de questões assim. Até 8 de Agosto vai ser um forrobodó.
É claro que há razões de queixa. Pequim traz os tibetanos à rédea curta há cinquenta anos e enche o lugar de chineses que roubam empregos aos nativos; o budismo é tolerado com apertos e muitas tradições tibetanas são reprimidas; os males do maoísmo passaram todos por lá, incluindo os horrores da Revolução Cultural. Aproveitando os Jogos Olímpicos, monges afoitos e gente nova desempregada de Lhasa fizeram marchas de protesto e assaltaram casas e lojas de chineses, pedindo a independência do Tibete. Repressão bruta não se fez esperar e como, graças à popularidade do Dalai Lama, o Tibete é uma vítima de estimação, Pequim está na berlinda. À nora, governos ocidentais procuram afinar reacções que confortem as consciências indignadas dos seus eleitores mas não ofendam tanto as autoridades chinesas que estas recorram a represálias económicas - porque essas são preço que a virtude ocidental não está disposta a pagar.
Os militantes dos direitos do homem entendem que a República Popular da China é uma grande prisão que sufoca liberdades e direitos dos cidadãos e não se corrigirá se não for chamada à pedra. O que não entendem ou lhes é indiferente é que ela é muitíssimo mais do que isso e que o coro actual de condenações estridentes aumenta a rigidez de Pequim e vira o nacionalismo chinês contra o Ocidente. Se complicações internacionais pusessem em causa a melhoria de vida espectacular do último decénio - milhares de milionários e milhões que passaram a comer todos os dias - o mundo iria tremer muito mais ainda.
O Dalai Lama sabe isso. Sem a invasão chinesa de que fugiu quando era novo, seria hoje o chefe obscuro de uma teocracia cruel e retrógrada mas no exílio ganhou voz respeitada e gabarito humanista. Não pede independência para o Tibete, pede autonomia; condena protestos violentos; é contra o boicote dos Jogos Olímpicos. Não lhe interessa fragilizar o poder chinês nem perturbá-lo demais na rota imperfeita e desviada que tomou a caminho do concerto dos estados decentes.
Se Pequim se decidir a falar com o Dalai Lama dará sinal de que a crescente importância da China no mundo talvez venha a ser menos incómoda para a saúde planetária do que Napoleão receou.
José Cutileiro