A INJECÇÃO NO PAPA
Manuel Queiroz
jornalista
A visita do Papa está, naturalmente, nas capas de todos os jornais americanos. Em quase todos o resumo na primeira página é feito a partir da condenação dos abusos sobre crianças mas, ao lado, ou muito perto, há outra notícia: o Supremo Tribunal da Justiça aceitou a injecção letal para as condenações à morte. O mundo é feito de contradições.
O Dallas Morning News é um bom exemplo. "Pontífice pede aos bispos para sararem feridos dos abusos" no título principal e, logo ao lado: "Decisão [do Supremo] reabre a porta à injecção." A capa do jornal mais vendido nos EUA, o USA Today, vai no mesmo sentido: "Bento XVI: 'Sarem as feridas'", em cima e um pouco abaixo: "Supremo abre caminho para recomeçar injecções letais." Ou no Washington Post: "Papa pede remédios alar- gados" (falando sempre sobre os abusos a crianças). Na coluna ao lado: "Juízes do Supremo confirmam procedimentos da injecção letal."
O Dallas Morning News, grande jornal do Texas, tem um fortíssimo editorial contra a pena de morte: "A deci-são do Supremo vai libertar a mais movi-mentada sala de morte - a de Huntsville, Texas." Há seis meses que as execuções estão suspensas à espera da decisão sobre se a injecção aplicada em Kentucky causava "dor desumana". O Supremo decidiu que não, por 7-2, o que também reabre a discussão sobre a pena de morte. 360 homens e nove mulheres esperam execução no Texas e o editorial relembra que Dallas tem a mais alta taxa de conde-nações provadamente erradas, mas a maioria dos texanos é a favor da pena capital. "As injecções letais podem ser usadas legalmente, mas isso não significa que as execuções tenham de continuar. Os legisladores do Estado que tenham dúvidas sobre o sistema têm a responsabilidade de reverem os seus processos."
Ontem o Papa celebrou missa ao ar livre num estádio de basebol em Washington falando da paz e dos abusos que já levaram a Igreja Católica americana a pagar mais de dois mil milhões de dólares em compensações às vítimas.|