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 voltar no voto americano

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vagalhao

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Mensagens : 288
Data de inscrição : 22/10/2007

MensagemAssunto: voltar no voto americano   Seg Jan 21, 2008 2:25 am

- Se já não podemos acreditar nas sondagens, como é que vamos conseguir adivinhar quem vão ser os vencedores?
Brokaw, o rosto histórico dos noticiários da NBC que se reformou em 2004, respondeu ao seu anifitrião:
- Talvez a alternativa seja esperar pelos resultados.
A
noite de 8 de Janeiro foi amarga para Matthews e para muitos
jornalistas políticos norte-americanos. Acreditando nas sondagens, que
davam a Barack Obama uma liderança inequívoca sobre Hillary Clinton,
nas primárias do Partido Democrata neste estado, os media davam como
certa a vitória do senador do Illinois e já estavam a ler a oração
fúnebre da campanha da antiga primeira-dama.
Hillary liderou a
contagem dos votos durante toda a noite. Mesmo assim, num primeiro
instante, as projecções da Fox News ainda davam Obama como vencedor. Na
noite da CNN, Wolf Blitzer manteve os espectadores suspensos dos
resultados de três mesas eleitorais que poderiam permitir à estrela
ascendente dos democratas inverter a situação. Hillary já levava uma
vantagem superior a cinco mil votos quando a agência AP deu a senadora
de Nova Iorque como vencedora. Só então toda a gente se rendeu à
evidência: a profecia não se consumara.
Os institutos de estudos de
opinião foram os primeiros a dar a mão à palmatória. Uma semana após a
votação, a presidente da American Association for Public Opinion
Reserach, Nancy Mathiowetz, comparava o desastre de New Hampshire ao
falhanço das previsões na eleição presidencial entre Dewey e Truman, em
1948, quando nenhuma sondagem previu a vitória de Harry S. Truman. Para
Mathiowetz, o que está agora em causa é "recuperar a confiança do
público".
Mas essa tarefa não parece ser apenas das empresas de
sondagens. Os jornalistas também estão em causa. Rem Rieder,
vice-presidente da American Journalism Review (AJR), sugere uma
desintoxicação aos media: "É uma pena o Betty Ford Center [instituição
de recuperação de alcoólicos e toxicodependentes fundada pela mulher do
antigo presidente Gerald Ford] não ser maior. A ideia de enviar para lá
todos os media nacionais para uma terapia séria é muito atraente."
Num
texto publicado no site da revista AJR, Rieder retoma o ponto do
diálogo entre Chris Matthews e Tom Brokaw. "A dependência dos media em
relação às sondagens como forma de prever o futuro não é obviamente
nova. Essa compulsão de liderar o jogo levou as televisões nacionais a
enganarem-se no vencedor da eleição presidencial de 2000 [entre Al Gore
e George W. Bush]". Para o analista, o New Hampshire já não foi apenas
um fiasco a juntar aos anteriores: "a coroação prematura de Obama e o
obituário de Clinton mostraram claramente que o modelo actual de
cobertura das questões políticas quebrou-se definitivamente".
O
problema é mais amplo do que o New Hampshire. Também os republicanos já
tiveram uma candidatura enterrada: John McCain foi dado como fora da
corrida no Verão de 2007, na sequência de vários problemas na sua
campanha. Tal como Hillary (ou Bill Clinton, há 15 anos), ele foi a New
Hampshire fazer o papel do Comeback Kid. Entre as opções possíveis para
o futuro, está a hipótese (entre outras) de a campanha eleitoral para a
Casa Branca vir a ser disputada entre dois candidatos que os
jornalistas excluíram da corrida: Hillary Clinton e John McCain. As
profecias são para os profetas. Ao contrário dos media, eles podem
dar-se ao luxo de errar.
Obamamania
No campo democrata, o jogo
das expectativas que não se concretizam começou com a derrota de
Hillary Clinton a 3 de Janeiro, no caucus do Iowa. Depois de um ano à
frente das sondagens, Hillary era apresentada como tendo a nomeação
democrata praticamente ganha. Do lado de Barack Obama, as coisas tinham
começado a mudar em Dezembro, na Carolina do Sul (onde as primárias
democratas estão marcadas para 26 de Janeiro) quando a mais importante
apresentadora de televisão norte-americana, Oprah Winfrey, deu voz ao
discurso da mudança de Obama e citou Martin Luther King perante quase
30 mil pessoas: "[Martin Luther] King sonhou um sonho. Mas nós já não
temos que sonhar esse sonho. Temos que votar para esse sonho se tornar
real."
Isto aconteceu na Carolina do Sul, onde o voto negro é
fundamental. Mas foi num estado rural e conservador, no qual a
esmagadora maioria da população é branca, que Obama derrotou Hillary. A
inesperada vitória do senador do Illinois teve uma repercussão poderosa
entre os jornalistas, como notava Howard Kurtz, na sua coluna no
Washington Post: "A generalidade dos media está a ser varrida por uma
vaga de Obamamania em que jornalistas normalmente duros de roer
observam o orador em acção e regressam maravilhados com os seus dons",
escrevia.
Para o analista de media, a surpresa estava na resposta
que um afro-americano democrata conseguia junto dos analistas
republicanos. "O mais curioso é que esse aplauso estende-se a peritos
de direita, a maior parte dos quais denigrem regularmente os políticos
democratas e que são excepcionalmente calorosos em relação a Obama. É
por gratidão, sem dúvida, uma vez que ele está posicionado para
derrotar a sua bête noire, Hillary Clinton (...), mas também por
admiração pela sua abordagem inclusiva da política e pelo seu talento."
A cereja no topo do bolo foi a opinião favorável de Bill O"Reilly, o
implacável comentador da Fox News, que o considerou um candidato "muito
carismático". E Kurtz, como outros analistas, sublinha que Hillary tem
uma má relação crónica com os media, mesmo os que estão do seu lado da
barricada: "Poucos colunistas liberais estão a verter lágrimas com as
dificuldades de Clinton, que não tem um campo natural que a apoie na
imprensa", acrescenta.
O jogo dos media disputa-se, portanto, em
dois níveis. Um é comum às duas campanhas e Rew Rieder sintetiza-o
desta forma: "Os cenários do dia não surgem do nada. Mas o que acontece
hoje é que os resultados das sondagens conjugados com a inside
speculation criam uma sabedoria convencional que é aceite como um
evangelho e que apenas um louco ou um ingénuo ousaria questionar.
(...). O problema está em assumir que o que é verdadeiro num dado
momento será verdadeiro para sempre. As campanhas eleitorais são
dinâmicas. As coisas mudam."
Uma conjugação de verdades
previamente assumidas e de fontes bem colocadas e habilidosas, com um
desejo, natural, afinal de contas, de antecipar a realidade e de estar
um passo à frente desta, é a receita conhecida para o jornalismo ficar
refém de um efeito Lucky Luke e querer ser mais rápido do que a
notícia. Nada de novo? Nada de novo. Como também é conhecida a pressão
que é imposta pelo peso cada vez maior da informação em tempo real:
televisão por cabo, organizações de media na Internet, blogues, tudo se
conjuga para uma crescente pressão do directo. "Temos que ter pena do
jornalista que escreve notícias de acontecimentos da véspera para o
jornal da manhã seguinte", diz Liz Cox Barrett, outro analista da CJR.
Raça e género
Tudo
isto são fenómenos conhecidos. A única notícia é: não há cura. O que é
realmente novo nesta campanha prende-se com a forma como este tipo de
ruído vai afectar a conjugação de dois acontecimentos históricos. Ou
seja, o facto de ser a primeira vez que uma mulher ou um afro-americano
podem aspirar de facto ao cargo mais importante do planeta. Raça e
género surgem por isso como temas centrais na disputa para a nomeação
democrata (e podem ser o caminho mais rápido para a eleição de um
republicano branco) e o estilo de mediatização da campanha pode
amplificar de forma muito crítica essas questões. Isso aconteceu a
propósito do discurso de Hillary Clinton sobre Martin Luther King. O
mesmo Luther King que Oprah Winfrey comparara directamente a Barack
Obama, o candidato que se apresenta a si próprio como um produto da
luta pelos direitos cívicos liderada por King na década de 1960.
Megan
Garber, também na Columbia Journalism Review, sustenta que um
passa-palavra entre fontes e jornalistas e depois de media para media
levou a que a intervenção de Hillary fosse considerada como tendo um
teor racista. Clinton sublinhara a importância de um Presidente
democrata, Lyndon Johnson, que assinou a Lei dos Direitos Cívicos pela
qual King se batia: "O sonho tornou-se realidade (...) por causa de um
Presidente que disse "vamos fazê-lo" e fê-lo", disse a senadora
democrata. Evidentemente, o subtexto deste discurso é que se Obama é
King, como dizia Oprah, então Clinton é Johnson. Mas Megan Garber
afirma: "É claro que o comentário de Clinton não tem nada a ver com a
raça. Ela estava a tentar evidenciar as pouco elogiadas vantagens de
ela ser uma Washington insider (...). Não estava a referir-se ao facto
de Obama ser negro; estava a referir-se ao facto de ele ser verde."
A
análise não será consensual mas num ponto Garber tem razão: existe uma
diferença entre o que foi dito e vários títulos da imprensa construídos
a partir de interpretações do discurso. A CBS, por exemplo, escreveu
que "as tensões raciais aquecem a campanha democrata". O facto é que a
resposta da campanha de Obama daria razão, a posteriori, a este título.
As duas campanhas interromperam a "guerra Luther King" no momento em
que perceberam que esta podia ser autofágica para ambas.
Neste
combate, Obama tem uma vantagem: enquanto os Clinton têm uma relação
tradicionalmente negativa com o establishment mediático, o senador do
Illinois beneficia da inexperiência. Richard Lowry, editor da National
Review (direita), citado por Howard Kurtz, explica que "ninguém
consegue ter nada contra ele porque ele ainda não fez realmente nada.
Não tem cicatrizes de guerra".
O próprio Bill Clinton sublinhou
que a imprensa é demasiado branda com Obama ao não escrutinar, de
facto, tudo o que o adversário de Hillary disse sobre o Iraque e
mantendo o "conto de fadas" de que ele foi contra a invasão do Iraque.
Joe Conason, na Salon, defende a posição da senadora de Nova Iorque:
"Alguém duvida que os mais influentes membros da imprensa nacional não
gostam de Hillary Clinton? Faccioso é um termo demasiado brando para
descrever o bullying de que ela foi alvo na televisão por cabo e na
imprensa."
Conason sugere mesmo que a reacção do eleitorado feminino
que à última da hora decidiu votar em Clinton no New Hampshire,
enganando os estudos de opinião, reagiram de facto à "hostilidade
corrosiva" dos media contra a candidata. Se fosse provado, esse
argumento mostraria que foram os media que provocaram o erro das
sondagens em que se basearam para fazer as suas previsões. Isso sempre
seria uma consolação para Chris Matthews. Afinal de contas, quando a
realidade se porta mal, a culpa é sempre dos jornalistas.
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