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 Conversa a 2 ....

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Xô Esquerda

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MensagemAssunto: Conversa a 2 ....   Sex Fev 29, 2008 11:43 am

"Falta consciência histórica à população portuguesa"


Entrevista com Rão Kyao, músico


Quando é que se interessou pela música?

Foi em miúdo. Na escola, sempre cantei. Lembro--me de ter interpretado uma ópera de Mozart. Na altura, estava longe de saber que iria fazer dessa vida profissão. Mas só mais tarde é que me interessei pelos instrumentos de sopro...

Porquê? Não são instrumentos tão habituais como a guitarra ou o piano...

Sim, é verdade mas eu sempre quis reproduzir a voz. Queria tocar como se estivesse a cantar. Os livros dizem que a flauta de bambu é o instrumento que mais se assemelha com a voz humana. Também sempre me encantou a imagem do pastor a tocar no campo. A faceta bucólica sempre esteve presente.

Cresceu na cidade. De onde vem esse gosto pela ruralidade?

Sou de Campo de Ourique [Lisboa] mas sempre tive gosto pelo campo. A música tem uma grande ligação à natureza. De certa forma, creio que percorri um caminho inverso a muitas pessoas que nascem num meio rural e querem vir para a cidade a todo o custo.

O que é que encontra no campo que a cidade não lhe oferece?

Principalmente, a paz interior. Há um recolhimento muito forte que é difícil de conseguir na cidade. Todos os dias viajo até ao campo para tocar um pouco. É um ambiente calmo, com muito ar puro. O lado contemplativo está sempre presente.

Pratica 'yoga'?

Desenvolvo uma série de actividades ligadas ao yoga mas a mais importante de todas é mesmo tocar (risos). Falando a sério, é muito bom para a saúde até pelo exercício que representa para os pulmões.

Como é que se sente num meio urbano cada vez mais agressivo?

Não gosto de multidões. Prefiro estar no meu canto mas não sou anti-social. Se estiver muita gente num espectáculo meu, óptimo! Gosto da Lisboa antiga, do Cais do Sodré e de Alfama. Sou muito fadista e até toco por carolice todas as segundas-feiras no restaurante Mesa de Frades.

Fado Bailado, disco que editou em 1983, obteve sucesso comercial e reconhecimento. Foi inesperado?

O Fado Bailado nunca foi pensado para grandes multidões. Quando o gravei, fiquei à espera que os puristas do fado me atacassem. Mas afinal não. No fundo, é apenas cantar o fado mas recorrendo a um instrumento de sopro.

De onde vem essa alma fadista que ficou clara nessse disco?

Quando era mais novo, gostava de fado e de flamenco e só mais tarde é que me envolvi com o jazz. Gostava muito da Amália Rodrigues e do Alfredo Marceneiro. Sou um pouco marginal mas não à força. Considero que a minha música é contestária apesar de já ter obtido muito sucesso com ela.

Esteve ligado ao fado e ao jazz. Considera-se um músico ecléctico?

Através de todas as diferentes influências, procuro mostrar um espírito que passa pela música do Oriente, pela Índia, pelo Norte de África e até mesmo por Goa. Tocar outras músicas é tocar-me a mim. Por vezes, sinto que gostava de saber tudo mas sei que é impossível (risos).

Há um interesse pela diáspora portuguesa que lhe é muito caro. É um apaixonado pela história?

É preciso compreender as origens. Creio que falta consciência histórica à população portuguesa para se perceber que, por exemplo, a influência árabe está muito presente na música.

De onde vem o seu interesse pela cultura oriental?

Sou fã de toda a música de raiz. É preciso compreender as origens para andar para a frente. A música oriental tem muito a ver connosco. Canta emoções como o fado. Tem muito a ver com o lamento. Para além disso, é muito chegada à voz.

Mais uma vez o lado espiritual presente...

É preciso compreender essa ligação. A música é a voz de Deus.

Tocou em Jacarta, na Indonésia. Como foi essa experiência?

Foi fantástico. Os problemas não estão no povo. São coisas criadas pela classe política. Não foram as pessoas que assaltaram Timor. É um território com uma tradição musical muito rica. Nesta altura, já nem estou completamente familiarizado com a cultura local. Mais importante, foi o concerto em Bombaim. Nunca me tinha sentido tão nervoso. Foi importante para ultrapassar fraquezas.

Sente que há tesouros por descobrir em tradições menos exploradas?

Claro! A cultura anglo-saxónica é avassaladoramente potente e consegue mesmo enganar as pessoas. Por exemplo, um miúdo pode ter a tentação de dizer que música portuguesa é toda aquela que é cantada em português o que não é verdade. O rock tem uma matriz claramente anglófona e pode ser cantado na língua portuguesa mas não é por isso que passa a pertencer à tradição nacional. Sou capaz de reconhecer uma frase musical por conhecer a nossa raiz.

As novas tecnologias podem ser importantes para a divulgação de outras músicas ?

Sim, mas acabam por não ser. Na teoria, são muito boas mas, mais uma vez, o imperialismo do mundo ocidental manipula a verdade. É o jogo do mais potente, mais uma vez a funcionar. Os mais poderosos dominam completamente a divulgação. Há alturas em que me sinto um estranho com o domínio de uma cultura que me é bastante estranha. Confesso que nunca estive muito ligado à pop.

dn
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Xô Esquerda

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MensagemAssunto: Re: Conversa a 2 ....   Sex Fev 29, 2008 12:07 pm

"Portugal ainda é uma monumental negociata"

Entrevista a Mário de Carvalho


"Não me preocupo com o efeito do momento"


Mário de Carvalho, 63 anos, é um autor incontornável da literatura portuguesa do último quarto de século. "Contos da sétima esfera", livro de contos publicado em 1981, já deixava antever um fulgor narrativo e um domínio invulgar da língua que seriam confirmados em pleno nos anos seguintes com obras como "Fabulário", "Os alferes" e "Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto".

Regressa aos romances cinco anos depois do amplamente elogiado "Fantasia para dois coronéis e uma piscina". Um hiato longo justificado pelo rigor obsessivo com que se entrega à escrita. "Não há frase que não vire do avesso", confessa. Ao festim verbal dominante no livro anterior, Mário de Carvalho contrapropõe agora, em "A sala magenta", o novo livro, uma reflexão melancólica sobre as dificuldades insolúveis no relacionamento entre homens e mulheres.



JN|Por que fez questão de enfatizar a componente ficcional de "A sala magenta", advertindo que "a acção e as figuras deste romance se reportam a um mundo ficcional de entrada franca"?

Mário de Carvalho| A experiência dos livros anteriores demonstra-me que há sempre a tentação de alguém se apoderar das minhas personagens e de procurar ver se tal pessoa da vida real encaixa ou não nas personagens do mundo que apresento aos leitores. Pode ser uma leitura algo viciada e 'voyeuse' dos meus livros. Preferia que houvesse uma abordagem literária e não tanto de bisbilhotice a propósito do mundo intelectual.

É notório que quis escrever um romance sem grandes significados ocultos, mas está preparado para que outros o façam?

Por estar preparado, senti a necessidade de fazer a advertência.

Duvida cada vez mais da eficácia dos romances-ensaio?

Costumo citar uma frase bíblica "Em casa do meu pai há muitas moradas". Há muitas formas de abordar os conflitos e as situações e o romance filosófico é um género estimável, mas que não é de todo a minha abordagem. O que rejeito é a tendência de que o romance serve para passar mensagens ou recados. É uma versão muito redutora e demasiado fixada no momento. Tenho responsabilidades para com os leitores de hoje, mas também para com os do passado e os do futuro. Não estou preocupado em tirar o efeito do momento.

Acha então que os autores demasiado centrados no presente.

...Vêem o futuro fugir-lhes. Nem sequer o presente conseguem abarcar. O meu objectivo não é causar titilações. Escrevo para os leitores e não para as audiências.

O protagonista Gustavo não será o protótipo de um empatado da vida?

É alguém que, chegado a um interregno da vida, faz um balanço e a conclusão a que chega não é lá muito positiva. Viu a vida passar sem ter deixado nenhuma marca importante. Pior ainda concluiu que os filmes que fazia não passavam, ao contrário do que pensava, de mediocridades. Quando faz contas, vê que fracassou e já há pouco a fazer.

É também um livro sobre o fracasso da geração de 60?

Todas as pessoas ou gerações que acalentam ilusões, incluindo sobre si próprias, acabam por fracassar. É da própria natureza das ilusões darem em desilusões. A ilusão transforma-se no seu contrário. Mas a geração de 60, a que pertence Gustavo, nem tem muitas razões de queixa. É uma geração vencedora, pois assistiu ao 25 de Abril e conseguiu triunfar em muitas das suas lutas.

Mas não foi uma geração que introduziu a desejada mudança.

Não. Como nunca acontece.

Não escassearão ilusões na geração actual, que busca antes de mais, por circunstâncias várias, o próprio conforto?

No meio artístico, não, pois há sempre a esperança de deixar algo de novo. Quando fizerem o balanço, alguns irão concluir que conseguiram e outros não. As causas de hoje são diferentes, reconheço. O que hoje é mobilizador, na altura era considerado desinteressante ou secundário. Talvez as gerações de hoje sejam um pouco mais acomodatícias, mas quem está no campo artístico não pode sê-lo, porque corre o risco de ser ultrapassado.

O tom melancólico e outonal que perpassa pelo livro não pode ser confundido com uma certa resignação?

Há resignação na personagem feminina principal, a Marta. Já Gustavo revela mais desespero. Assalta-o a sensação de que está cercado pelas circunstâncias de derrota, mas também está assombrado por uma grande paixão de cuja obsessão não consegue libertar-se.

Há muitos Gustavos por aí?

(risos) E jovens Gustavos também. Prontos a embarcar na primeira roda das ilusões pessoais, que faz parte da natureza humana.

Tal como o revelam as personagens Gustavo e Marta, o desamor alastra cada vez mais na nossa sociedade?

Vivemos melhor do que anteriormente. E não creio que as actuais gerações sejam piores do que as nossas. Nem sequer é verdade que antigamente se lesse mais. Só uma elite tinha acesso à educação. A maior aspiração das pessoas era ficar na sua aldeia. Quando muito, um emprego nos correios. O mundo mudou muito e para melhor. Este já não é o país dos dentes pobres e da gente rota.

É o maior grau de exigência que explica que as pessoas sejam mais críticas hoje?

É sinal de que estamos melhores.

"Fantasia para dois coronéis e uma piscina" era um retrato mordaz sobre o Portugal de hoje. Esses traços apontados, da tagarelice ao novo-riquismo, acentuaram-se?

Muitos mantiveram-se e outros agravaram-se. Há certas características do Portugal moderno que são civilizacionalmente intoleráveis. Refiro-me ao respeito para com os outros, o cumprimento dos acordos… Tem que ver com o rigor. Como é possível que ainda não estejam presas pessoas que se exibem diariamente na televisão? Não é que goste de ver pessoas atrás das grades, mas há questões de decência e decoro social que são prioritárias. Logo após o 25 de Abril houve pessoas que começaram a abocanhar os recursos nacionais. Mas é gente malhadiça, ou seja, por mais que a denunciemos lá continua a fazer as suas negociatas.

Impera a ilegalidade?

Vivemos em Portugal num mundo mais ou menos mafioso de traquibérnias. Alguém tem que pôr cobro a isto. Não podemos continuar assim, porque quanto mais tempo continuarmos a arrastar atrás de nós este Portugal piolhoso da Inquisição, do miguelismo e do fascismo, não iremos adiante. Foi o reflexo da mesma mentalidade que levou essa gente a apoderar-se dos recursos e a transformar isto na monumental negociata que ainda é. O que se tem passado com os últimos escândalos vindos a lume - e nem sequer falo do pobre meio do futebol - é emblemático. Como é que nós consentimos isso?

As culpas não serão colectivas?

Há um problema sério de mentalidade. Não foi impunemente que tivemos uma censura ferocíssima e aviltante durante 300 anos ou que o miguelismo tenha vingado tão facilmente em Portugal, com a força, o cacete e a humilhação do outro. Se o consentimos é porque há um espírito cívico fraco que transporta consigo esses atavismos.

Estarão criadas as condições para que possa eclodir, como alertou há dias a SEDES, uma crise social de dimensões imprevisíveis?

Não se trata de mudar de sistema, mas de conseguir que se inverta o espírito do saque, do chico-esperismo e da mentirola. Isso passa pela Educação, não pelos ministros, ou pela televisão pública, que deve estar num patamar acima de qualidade ...

Só emerge do recato quando publica um livro. Custa-lhe assim tanto abandonar a quietude que o rodeia?

Sou cada vez menos sociável. Não sou uma pessoa de convivência. E também não gosto de exibições, talvez por ter um forte sentido do ridículo.

jn
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MensagemAssunto: Re: Conversa a 2 ....   Sab Mar 01, 2008 8:53 am

Xô Esquerda escreveu:

Entrevista com Rão Kyao, músico



Hoje, CD á borla com a compra do DN, não sei o JN faz a mesma oferta!
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Xô Esquerda

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MensagemAssunto: Re: Conversa a 2 ....   Seg Mar 03, 2008 11:59 am

Emídio Rangel

PS sempre foi desastrado na área da comunicação social


Emídio Rangel, Consultor de televisão, fala dos vinte anos da TSF, da qual foi um dos fundadores. Diz que o ministro Augusto Santos Silva é um ignorante e incompetente em matéria de Comunicação Social, confessa que vota PS, mas reconhece que os socialistas sempre foram desastrados nesta área e desculpa José Sócrates, que conhece bem e de quem gosta, porque o primeiro-ministro sempre teve horror em mexer nesta matéria.


Correio da Manhã – Vinte anos da TSF. Foi uma boa e grande aventura?

Emídio Rangel – Foi uma boa grande aventura. Foi também um exercício difícil em que foi preciso muita força, muita fé, muita determinação para concretizar esse projecto.

- E para desafiar o poder político, não foi?

- De alguma maneira, sim. Porque eu lembro-me perfeitamente que eu era jornalista do quadro da RDP, depois nessa fase já era subchefe de redacção da RDP e fui até despedido por estar a defender as rádios privadas, por estar a defender um outro projecto, por estar a defender politicamente a abertura de novas estações de rádio. Evidentemente que não me conformei com essa decisão e a RDP foi obrigada não só a readmitir-me, a TSF não existia ainda, e a anular da minha ficha pessoal esse dado. Mas, enfim, foi um processo político. De resto, a TSF faz vinte anos mas a luta da cooperativa começou sete anos antes.

- Com emissões clandestinas e tudo.

- Clandestinas não. A TSF criou uma cooperativa, é uma cooperativa, que começa a funcionar há vinte e sete anos e esses sete anos foram anos de batalha política. Aconteceu uma coisa estranha em Portugal do ponto de vista democrático.

- Estranha?

- Sim. Havia mais estações de rádio antes do 25 de Abril do que depois do 25 de Abril. No 25 de Abril nacionalizaram-se todas as rádios privadas e em determinada altura tínhamos a rádio do Estado e a rádio da Igreja. Evidentemente que este panorama não era saudável, até porque o exercício da democracia exige multiplicidade de vozes, sobretudo em relação à rádio, que é um meio barato.

- Que chega a toda a gente.

- Sim. E havia muitas hipóteses de se tirar partido disso. Bom, mas vivíamos com uma rádio do Estado e uma rádio da Igreja.

- E todo o poder político concordava com essa situação. E era muito variado.

- O poder político era variado, sem dúvida. Mas é muito interessante e muito engraçado. De resto esse estudo não está feito, algum dia alguém o fará com o rigor necessário. Mas havia um consenso nacional, mesmo a nível partidário, relativamente à manutenção do status quos. O Partido Comunista não queria mais vozes, o PC gostaria certamente que estivéssemos reduzidos a uma só voz.

- A um monopólio.

- Exactamente. O PC não tinha interesse numa realidade plural desse ponto de vista. Eu nunca vi o PC defender abertura da televisão à iniciativa privada, nunca vi nada disso. O que eu vi também é que o PS e PSD tinham exactamente a mesma noção relativamente àquilo que devia ser feito em Portugal. Ou seja, estavam satisfeitos com o que existia, com uma estação do Estado e outra da Igreja, com uma harmonia entre estas duas instituições, governavam assim muito bem. Era um tempo em que, como é óbvio, havia um grande controlo da informação e como é evidente defendiam a solução mais fácil.

- Romper essa barreira foi muito difícil?

- Foi uma batalha política terrível, travada junto da opinião pública e junto do Parlamento para que houvesse novas rádios, para sair uma lei, porque nem sequer havia uma lei, foram feitos muitos atropelos nessa altura, foram atribuídas frequências nessa altura quer à RDP quer à Renascença sem haver lei.

- Para ocupar o espaço?

- Sim. E de algum modo para reduzir a hipótese de aparecer qualquer rádio que pudesse vir a ter expressão nacional. Eventualmente, o que lhes poderia passar pela cabeça era a existência de uma rádio muito pequenininha, com muito pouca potência, quase sem capacidade para chegar aos seus ouvintes. Rádios sem nenhuma expressão. E depois havia duas rádios que tinham o espectro todo para eles. Isto foi o que lhes passou pela cabeça e se não fosse a batalha que desenvolvemos nessa altura, para explicar que as coisas não deviam ser assim, que devia haver rádios regionais, rádios nacionais, rádios locais, que a essência dessa multiplicidade de vozes era importantíssima para a própria democracia, para o fortalecimento da democracia.

- Uma luta de sete anos.

- Pois foi. Passávamos de legislatura em legislatura, estava já a lei feita e voltava tudo atrás.

(continua)


Última edição por Xô Esquerda em Seg Mar 03, 2008 12:04 pm, editado 1 vez(es)
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Xô Esquerda

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MensagemAssunto: Re: Conversa a 2 ....   Seg Mar 03, 2008 12:00 pm

- Vinte anos depois como é que vê a situação da rádio em Portugal?

- Vejo com alguma preocupação, para ser franco. Não acho que o cenário seja igual àquele que acabei de descrever, mas, por exemplo, há dias li que aquilo que está na lei e que é proibido executar foi viabilizado para a Rádio Renascença.

- O que é?

- A Rádio Renascença vai abrir uma nova estação de rádio. Uma estação dedicada aos estratos etários entre 55 e 75 anos. Pergunta-se como, se não há espectro radioeléctrico, como é que isso vai acontecer?

- Como?

- Vai acontecer com a compra de rádios locais por parte da Renascença. E vai fazer uma cadeia com essas rádios.

- O que foi sempre impedido à TSF, por exemplo.

- Evidentemente. Mas o engraçado disto é que isso é impedido pela lei. A lei impede que as rádios locais façam cadeia entre elas. A lei impede que o mesmo programa esteja em difusão por um conjunto de estações e tudo isso vai ser permitido.

- O que é vai mudar com essa nova estação?

- Isto vai significar uma perda de um património interessante e importante. Isto é, não vou dizer que não haverá mais rádios locais, mas vou dizer com uma grande segurança que uma boa parte das rádios locais desaparece, morre. Tiveram sempre uma vida difícil e a maior parte das rádios locais vai ser integrada na Renascença.

- Canibalizada?

- Exactamente. E por isso vamos ter poucas rádios locais. O que eu acho que é uma grande perda. As rádios locais não são rádios tecnicamente avançadas, não são rádios com grande qualidade, mas são rádios que fazem um papel insubstituível em cada zona, em cada região. Não nem damos por elas. Estamos aqui em Lisboa, nem vemos isso acontecer.

- Só se dá por elas em viagem.

- Só em viagem é que se dá por isso. Mas elas servem pequenos núcleos de público, fazem debates sobre as suas questões regionais e, parecendo que não, isto tem uma grande importância, sobretudo quando se discute o poder local. Claro que houve uma parte das rádios locais que se deixou tomar pelos poderes das câmaras. Todas essas perversões aconteceram, mas o que do meu ponto de vista era acertado era apoiar as rádios locais. Era dar-lhes algum apoio, era encontrar formas de as ajudar para poderem existir e não matá-las. Acho que isso vai ser uma grande perda.

- É um regresso ao passado?

- Exacto. E depois acho que a RDP tem redes de frequência subaproveitadas. A Renascença tem praticamente as mesmas redes que a RDP, redes nacionais, tem várias redes nacionais, que também acho que vão ficar subaproveitadas. Em vez de se jogar um jogo aberto, claro, com a possibilidade de haver mais estações nacionais, faz-se isto.

- Voltemos à situação da TSF.

- Sim. Recordemos só que a TSF ainda não é hoje uma rádio nacional. A TSF tem uma cobertura a Norte melhor do que tem a Sul porque conseguiu uma concentração empresarial com a rádio que ganhou a rede regional Norte. Mas a Sul tem enormes dificuldades. Do meu ponto de vista, é claríssimo que um dos objectivos de quem dirige a política de comunicação social em Portugal deveria ser dar à TSF a possibilidade de ser uma rádio nacional.

(continua)


Última edição por Xô Esquerda em Seg Mar 03, 2008 12:04 pm, editado 1 vez(es)
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Xô Esquerda

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MensagemAssunto: Re: Conversa a 2 ....   Seg Mar 03, 2008 12:03 pm

- Estes vinte anos falam por si, não acha?

- Esta é uma rádio que por tudo o que fez, pela sua história, devia ter cobertura nacional, expressão nacional. Não tem.

- Muitas pessoas não sabem ou esquecem-se disso.

- Não é uma rádio nacional. Tem zonas de silêncio enormes. Não se resolve este problema para depois se continuar uma política de concentração.

- Não deixa de ser irónico, porque o ministro da Comunicação Social anda a preparar uma lei contra a concentração.

- Eu confesso que tenho, em relação a este ministro, a pior das impressões. Já o manifestei publicamente. Provavelmente fará bem o seu trabalho como ministro dos Assuntos Parlamentares, como ministro da Comunicação Social é um incompetente, não sabe o que anda ali a fazer.

- Já o manifestou em diversas ocasiões.

- Em diversas ocasiões teve oportunidade de mostrar e de provar que não sabe o que está a fazer.

- Não acha que tem alguns tiques de autoritarismo?

- Eu também acho que tem alguns tiques de autoritarismo. Tem pelo menos, se não tiques de autoritarismo, uma atitude muito arrogante. Fala de cátedra, fala como se porventura possuísse grandes conhecimentos neste domínio e nesta matéria. Eu acho que é um ignorante nestas coisas, tem feito grandes asneiras, tem adoptado soluções muito erradas nesta matéria.

- Como a Entidade Reguladora para a Comunicação Social?

- A sucedânea da Alta Autoridade para a Comunicação Social. Ele não teve a coragem de eliminar o vício da indicação de pessoas que são comissários políticos. De resto acho engraçado que o PS, que é um partido que eu respeito e, não sendo militante de nenhum partido, em que normalmente eu voto, embora o meu voto nunca foi cego. Voto em consciência se eu sentir que o meu voto é merecido e acertado. De outra maneira não o faço.

- Estava a falar que acha engraçado o que se passa com o PS.

- É. O PS consegue ser em muitas circunstâncias um partido de vanguarda, um partido que traz novidade e na área da comunicação social foi sempre desastrado. Mas sempre. Desde o 25 de Abril.

- É quase uma sina.

- Olhe, eu lembro-me perfeitamente de ter tido no Centro Nacional de Cultura uma discussão em público, um debate em público, em que dirigentes importantes do PS, numa altura em que se discutia as rádios locais, defendiam a nacionalização da Renascença e nunca a abertura de novas estações de rádio. Depois, quando se tratou da televisão, não foi o PS que avançou com esse processo, não teve a coragem e o orgulho de abrir novas estações de televisões.

- Passou-se o mesmo com a imprensa.

- Passou completamente ao lado desse processo e agora, enfim, eu esperava que depois de tantos erros cometidos ao longo de vários Governos e depois de terem feito tantos entorses neste domínio, não tivessem percebido o tempo e a história nestas ocasiões, que pelo menos agora tivessem outras posições.

- Mas esta política de comunicação social não é da responsabilidade do primeiro-ministro José Sócrates? Esta política de Augusto Santos Silva não é avalizada por ele?

- Eu vou dar o meu ponto de vista com toda a franqueza. O primeiro-ministro, que eu conheço bem pessoalmente, teve sempre algum horror, entre aspas, a mexer nas áreas da comunicação social. Eu lembro-me perfeitamente de algumas conversas que nós tivemos em que ele, quando era ministro do Ambiente mas tinha a tutela da comunicação social, entregava a tutela da comunicação social ao Arons de Carvalho e não queria tocar naquele assunto. Eu acho que de algum modo está a fazer o mesmo neste momento. Acho que faz mal.

- Mas gosta dele como primeiro-ministro?

- Gosto dele como primeiro-ministro, acho que tem sido corajoso, tem feito reformas de que um dia Portugal e os portugueses vão sentir que foram necessárias, absolutamente necessárias em áreas completamente decisivas, mas, de facto, fico com alguma mágoa por sentir que na área da comunicação social quem domina a máquina e quem toma decisões a esse nível são pessoas que vêem o sector nos dias de hoje como há trinta anos atrás. Estão trinta anos atrasados. Precisavam de avançar trinta anos para perceber que hoje a dinâmica da comunicação social é completamente diferente.

- O Governo anunciou que vai abrir um quinto canal de televisão. Acha positivo?

- Acho que é positivo. Julgo que terei sido uma das vozes que mais frequentemente clamou pela existência de mais um canal, independentemente do meio tecnológico que o difunde, independentemente da plataforma técnica de difusão. Sempre achei que era necessário que surgisse em Portugal mais um canal.

- Há espaço comercial?

- Não tenho dúvidas sobre isso. A prova está completamente feita. É só tirar as conclusões. Há uma preguiça nas duas estações privadas que as leva, mais na SIC do que na TVI, embora agora depois de ter chegado ao terceiro lugar começou a dar sinais de vida. Mas a SIC desinvestiu, e a TVI também, na programação. Porque estão convencidas de que a melhor solução é oferecer muita pouca programação aos portugueses e ganhar o mesmo ou mais dinheiro.

- Isso nota-se na informação e na programação?

- Nas duas áreas. Mas repare. Isto não se resolve com leis. Isto não se resolve, como este ministro fez, com leis a condicionar a actividade dos jornalistas, não se resolve com leis a programas as televisões. Ele fez praticamente em lei aquilo que é a grelha de programas da RTP. É absolutamente caricato. Ele determina, em lei, qual é o tempo dos telejornais, qual é a hora em que os telejornais devem passar...

- Até os temas.

- ...até os temas. Isto não acontece em nenhuma parte do mundo.

- E a ERC monotoriza as televisões.

- A ERC é uma espécie de ASAE das televisões. Mas, com toda a franqueza, eles podem fazer esse exercício mas nenhum deles esteve em funções de responsabilidade em televisão e em rádio. Enfim, são pessoas que estiveram nos últimos quinze anos envolvidos em tarefas de comissariado político.

- O ministro já disse publicamente que o novo canal não vai ser de telenovelas. Vai ser um canal muito diferente. O erro mantém-se?

- Ele tem a tentação da intervenção nos conteúdos. Acho que é uma questão que o atrai. Se ele não fosse ministro e não fosse um professorzinho de uma escola superior do Porto acho que o que ele gostava de ser era, enfim, trabalhar num área de direcção na comunicação social. Ele tem uma tentação de mexer nos conteúdos. O poder não pode mexer nos conteúdos. Ele, como ministro da Comunicação Social, devia saber que nos conteúdos o Governo não deve mexer. O Governo estabelece uma regulamentação em termos genéricos e não devia, não pode mexer nos conteúdos.

- Ainda por cima em canais privados.

- Muito menos a uma estação privada. Eu diria que nem na estação pública. Eu acho isso um verdadeiro escândalo. Ele não devia, como fez em lei, a grelha de programas da RTP. Acho isso extremamente redutor, porque a RTP tem de prestar um serviço público mas ao público, com público. Não é um serviço que depois não tem audiências, não tem espectadores.

- O novo canal já começa mal?

- O ministro da Comunicação Social já está a querer ter intervenção nos conteúdos de uma estação que é privada. O que é interessante verificar é que já está anunciado o concurso técnico para a criação da plataforma e está anunciado também que até Agosto será lançado o concurso para aqueles que querem vir a ter essa rede. O que eu quero fazer aqui é uma espécie de alerta para aqueles que sempre quiseram ter aí um canal e que eu acho que faz falta e que é importante que eles tenham esse canal.

- Qual é o alerta?

- A migração para o digital das estações analógicas está marcada para 2012. A partir dessa altura a SIC, a TVI, a RTP têm de migrar para o digital. Mas só nessa altura estão obrigadas a migrar para o digital. O que pode acontecer é que este ano fique decidido qual é a entidade que ganhe esse concurso para abrir um novo canal de televisão. E é importante que essa entidade perceba que existe um problema complicado e grave.

- Qual é?

- Se não perceber que as estações abertas e gratuitas só em 2012 vão estar obrigadas a migrar para o digital ele vai ficar sozinho na plataforma digital. E como para se ver o sinal nessa plataforma é preciso pôr uma antena ou mudar o televisor e pôr uma box as pessoas não vão fazer isto para ver só um canal. Ou seja, essa entidade vai ficar três ou quatro anos em prejuízos avultados porque não tem espectadores. E não tendo espectadores não tem publicidade. Portanto, é preciso ponderar este factor com grande cuidado porque senão isto pode ser uma grande armadilha. E o Governo não levou isto em conta, o ministro da Comunicação Social não levou isto em conta. Só que não explicou que o vencedor do concurso pode ficar sozinho.

- Seria um caso único.

- Mas sabe que essas experiências já foram feitas. Essa gente anda a dormir. Há vinte anos atrás foi criado um canal em França, um canal do Estado, que tinha todo o dinheiro disponível para exercitar tudo o que quisesse. Esse canal foi entregue a pessoas com a mentalidade deste ministro, faziam a programação que queriam, como lhes apetecia. Esse canal fechou por falta de espectadores.

- É extraordinário.

- Tinham todo o dinheiro para fazer a programação que quisessem. E fizeram-na. Juntaram os intelectuais todos, juntaram pessoas com esta mentalidade, eu diria também muito conservadora, como a do ministro desta área, e o canal fechou, não por falta de dinheiro, mas porque divorciaram-se de tal maneira do público que ficaram sem espectadores.

- Isso não acontece apenas na televisão.

- Pois não. Aplica-se neste caso a história de alguns realizadores de cinema que dizem que o melhor filme do mundo é aquele que não tem nenhum espectador.

- O que é acha desta proposta do líder do PSD de proibir a publicidade na RTP?

- Acho um verdadeiro disparate. Eu não tenho outra forma de catalogar e classificar essa proposta do líder do PSD. Tem sido para mim uma desilusão. Porque eu achava-o capaz de um exercício melhor. Mas, de facto, ele desiludiu-me completamente. E esta é mais uma. Um dia ele acordou e disse que quando eu for primeiro-ministro não há mais publicidade nas estações públicas. Bom, existem três ou quatro estações de televisão nos vinte e sete países da Europa que não têm publicidade.

- Uma delas é a BBC?

- Exacto. Tem uma grande tradição, foi concebida de outra maneira, foi concebida noutro tempo, criou um hábito e uma estrutura que lhe concedeu outra dinâmica. Mas nos outros países essas estações públicas não têm nenhum significado. Como não tem, por exemplo, nos Estados Unidos.

- E A BBC está a ter muitos problemas.

- Muitos problemas. E sei perfeitamente que uma das hipóteses que se encara, que não é considerada politicamente correcta na Grã-Bretanha, é a de que não vai passar muito tempo sem que apareça um Governo que abra a BBC ao mercado da publicidade. Estou convencido disso. E tenho visto muitas pessoas a defender posições próximas desta.

- Mas em Portugal a situação é muito diferente.

- A RTP tem uma dívida elevadíssima e a verba angariada em publicidade está completamente alocada ao pagamento dessa dívida. Mas a verdade é que se nós queremos ter e devemos querer ter estações de televisão privadas com propostas diversificadas devemos ter uma estação de serviço público nacional.

- A sua posição é muita clara. É preciso ter uma estação pública de televisão.

- Eu acho que é preciso.

- Não defende a privatização da RTP?

- Eu não defendo essa posição porque acho que a RTP, num País que não atingiu os níveis de opinião pública, de ideias e de cidadania bastante elevado, não deve ser abolida. Acho que deve ter um papel importante a desempenhar. Mas não vou dizer que isso é eterno. Depende do grau civilizacional a que a nossa sociedade chegar.

- Não é um dogma.

- Não é um dogma. Mas acho que hoje a RTP faz falta, é necessária e é importante. E precisa de ser importante, precisa de estar actualizada, precisa de dispor dos meios todos para poder fazer um serviço de qualidade. Assim sendo, no dia em que acabar a dívida a receita de publicidade, esse dinheiro devia ser utilizado na revalorização da própria RTP. Sei que o que Luís Filipe Menezes faz é uma atitude de favor, de benefício às estações privadas.

- A SIC e a TVI precisam disso?

- Repare. Eu não tenho nada contra as estações privadas. Toda a minha vida trabalhei nas estações privadas, em Portugal e fora de Portugal. É o meu ambiente natural. Mas aqui em Portugal às vezes acontecem coisas estranhas.

- Tais como?

- Repare. A SIC ou o doutor Balsemão, como se queira, conseguiu situações de privilégio.

- Está a referir-se à SIC Notícias? Esse projecto lançado por si acabou por ser a causa da sua saída, a história da fusão das redacções. Acabou por ser redutor?

- Redutor. De resto, uma das lições que na SIC deveriam tirar era exactamente a de que um meio de comunicação social tem de ter uma coluna vertebral muito bem definida e tem de estabelecer a sua diferença relativamente aos outros meios. Quando não se consegue perceber onde está a diferença e quando se começam a mistura um repórteres e os pivots aparecem num lado e noutro, portanto, quando isto se transforma numa grande mistura significa que uma delas perdeu identidade. E nessas circunstâncias, o que normalmente acontece é que a mais pequena perde a sua identidade por completo.

- A seguir é o desastre?

- Ao perder essa identidade evidentemente que perdeu o seu valor. Aquilo que é mais fundamental num meio de comunicação social, seja televisão, rádio ou jornal, é a sua identidade muito marcada. Esta estação faz isto, serve isto com estas pessoas.

- É o seu capital.

- É o seu capital. As pessoas vão ver a televisão A ou a televisão B para ir ver o apresentador X ou Y de que gostam, que tem um estilo próprio. Se este apresentador saltita de estação para estação é o fim. Pode ser o mesmo dono. Mas cada estação é uma realidade distinta, única, com uma disciplina própria, com cânones próprios, com uma lógica própria. O máximo que se podia fazer foi o que eu fiz. De um lado a SIC, do outro lado uma coisa que se chama SIC Notícias. Aproveitavam-se imagens, mas nunca misturei pivots e outras coisas.

(continua)


Última edição por Xô Esquerda em Seg Mar 03, 2008 12:05 pm, editado 1 vez(es)
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Xô Esquerda

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MensagemAssunto: Re: Conversa a 2 ....   Seg Mar 03, 2008 12:03 pm

- Nuno Santos saiu da RTP e foi para a SIC, José Fragoso voltou à RTP, a TVI mantém-se na mesma. Como é que vê a televisão neste momento em Portugal?

- Acho que os três canais ainda estão longe de oferecer ao público português aquilo que esse público merece. A televisão já foi mais interessante do que é neste momento. Hoje tem uma oferta mais pobre.

- Isso deve-se a dificuldades financeiras?

- Não. Isso deve-se a outra ideia. Repare. Quando eu saí da SIC a estação ganhava muito dinheiro. Tinha lucros anuais avultados. A questão não é essa. A questão é de querer ultrapassar determinados níveis de lucro, que depois não são suportáveis, e preferem sacrificar o conteúdo para manter esses lucros.

- E dá resultado?

- Não, muitas vezes disse ao doutor Balsemão, quando ele me perguntava se não ganharíamos mais dinheiro se fossemos a segunda estação. Eu disse-lhe sempre que não. Quem for líder vai sempre ganhar mais dinheiro porque a distribuição da publicidade não é equitativa. E também lhe dizia que quando quiser ser segundo pode acabar por ser terceiro. E foi o que aconteceu. Agora, como é a última do ranking está a tentar recuperar.

- Isso não custa muito dinheiro?

- Custa. Vai gastar muito dinheiro para recuperar, para conseguir isso.

- É um profissional conhecido e com provas dadas. Porque é que ninguém o chama para nenhum projecto em Portugal?

- Não devia ser eu a responder a essa pergunta.

- Mas já foi avaliado e sempre com bons resultados.

- Sim, nas empresas em que estive havia sempre avaliações. Sempre, todos os anos, a pessoas eram avaliadas. Não percebo porque é que os professores se recusam a ser avaliados. Mas sabe que o que é engraçado é que tendo dedicado toda a minha vida à rádio e à televisão, tendo feito o trabalho que está aí, que é público, quer a SIC, a SIC Notícias, a SIC Radical, a SIC Gold, a SIC Filmes, que produziu filmes para a SIC sem que a SIC tivesse gasto um tostão, a TSF. Apesar disso tudo, de terem sido projectos bem afirmados, projectos de sucesso ainda nos dias que correm, o reconhecimento do meu trabalho é feito fora do meu País.

- Fora do País?

- Sim. A televisão espanhola consulta-me e paga-me para isso para eu dar um parecer sobre a próxima grelha de Verão, a grelha de Inverno ou sobre uma determinada reestruturação. Eu fiz um projecto para uma estação de televisão para Angola.

- Esse está em curso, não é?

- Eu fiz o projecto, eles gostaram muito do projecto, penso que esse projecto, se for para diante, irá trazer grande novidade porque o seu objectivo é fazer com que uma estação funcione para Angola mas que seja a primeira estação a sul do Saara a chegar ao continente europeu. Repare que todas as estações do hemisfério Norte estão no Sul e não há uma do hemisfério sul que chegue ao Norte. Eu fiz esse projecto, julgo que vá por diante e será um bom investimento.

- Trabalho só no estrangeiro.

- Exacto. Eu tive uma intervenção na televisão brasileira, estive até para fazer um projecto mais forte de reestruturação integral da Bandeirantes. Isso não aconteceu mas tive intervenção nesse processo. A única coisa que consigo fazer em Portugal é ser professor universitário, dar umas aulas e por acaso aí ainda não senti nenhuma acção persecutória.

- É uma sina, é um mal português, é um sinal de mediocridade?

- É um pouco de isso tudo.

- Já Alexandre Herculano dizia que este é um país em que apetece morrer. O Vasco Pulido Valente fez esta citação esta semana. Concorda?

- Confesso que às vezes me passa pela cabeça ir-me embora. Ir-me embora. Acho que quem não reconhece o trabalho dos outros, quem vive num circuito de inveja, que é perfeitamente doentio, quem vive numa lógica de pessimismo, como vive uma boa parte deste conjunto de pessoas, quem se esgatanha nestas batalhas inúteis, enfim, tenho muita dificuldade em viver desse modo. E por outro lado sou uma pessoa que falo com clareza e frontalidade. Nunca traí ninguém na minha vida.

- É um alvo de intriga. Ainda agora se falava no seu nome para a RTP, que era amigo de José Sócrates e outras coisas mais.

- Eu nunca consegui controlar esses boatos. Mas eu sabia perfeitamente que nunca, em circunstância alguma, eu poderia ter qualquer intervenção na RTP. Uma vez tive aí uma polémica com este senhor que é ministro da comunicação social e é evidente que estas coisas são levadas a sério e pagam-se. E eu estou a pagar o preço da minha clareza e da minha frontalidade. Acho que as coisas não deviam acontecer assim. Acho que é pouco civilizado que as coisas se resolvam dessa maneira. Mas pronto. Eu não me importo nada, eu não vou modificar nada em mim, eu sou deste modo. A primeira condição que eu pus ao doutor Balsemão para ir para a SIC, a primeira, foi que eu iria dizer sempre o que penso. Com educação e clareza. Porque eu não sei funcionar de outra maneira. Se isso contrariasse o modo como via a SIC, clarifiquemos já a situação e eu não vou para a SIC.

- Mas foi.

- Fui. Mas sabe que eu envolvo-me nas coisas, eu não sou capaz de viver a meia nau. Eu apaixono-me pelos projectos, vivo-os com uma enorme intensidade, gosto que me peçam contas, mas gosto de dizer o que penso sobre as coisas. Em circunstância alguma quero viver de outra maneira, porque não vivi, nem sequer antes do 25 de Abril vivi assim. Mas como se vê paga-se sempre um preço. E eu pago o preço disso.

PERFIL

Emídio Rangel nasceu em Angola há sessenta anos. Com duas filhas, começou bem cedo a trabalhar na rádio. Aos 17 anos iniciou a sua aventura na Rádio Huila, em Sá da Bandeira, actual Lubango. Chegou a Lisboa em 1975 e entrou na RDP por concurso. Andou em História na Faculdade de Lisboa, ganhou o Prémio Reys de España e em 1988 foi um dos fundadores da TSF. Em 1992 arrancou com a SIC e nove anos depois, em 2001, foi para a RTP. Saiu em 2002.

UM PREÇO MUITO ELEVADO

Emídio Rangel é um homem polémico, frontal, sem papas na língua. Sempre foi assim. E não tem dúvidas em dizer ao jornalista que não sabe viver de outra maneira. Também é uma pessoa apaixonada pelo que faz. Foi assim na luta pela fundação da TSF, que durou sete anos contra o poder político, da esquerda à direita, foi assim na SIC quando respondeu ao desafio de Pinto Balsemão. E continuou a ser quando bateu a porta da estação de Carnaxide e foi para a RTP, onde esteve muito pouco tempo.

O Governo de Durão Barroso indicou-lhe o caminho da porta poucos dias depois de ter tomado posse. O mensageiro do despedimento foi o então presidente, Almerindo Marques. Porque sim. Sem uma única razão profissional. Desde então Emídio Rangel ficou afastado das rádios e televisões portuguesas. Trabalhou para Espanha, Brasil e acabou de fazer um projecto para uma televisão em Angola.

Em Portugal, no seu país, só consegue dar aulas numa universidade e escrever artigos de opinião na imprensa. Um preço alto, muito alto, para quem não tem medo de dizer que o ministro da área é um incompetente.

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MensagemAssunto: Entrevista a Mário de Carvalho   Seg Maio 05, 2008 1:46 am

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As promessas por cumprir


Mário de Carvalho habituou-nos a uma escrita rigorosa, cheia de ironias, onde parece entrever-se pessimismo, desencanto. Mas descobrimos que este ex-comunista tem, afinal, muita confiança no futuro.

Uma lagoa – a lagoa Moura – como lugar (personagem?) central. Um protagonista chamado Gustavo – realizador de cinema a ensaiar, amparado pela irmã, um balanço da sua vida –, dono do olhar com que tudo nos é contado. Uma pistola pousada em cima de uma escrivaninha, que se torna símbolo do «mistério» de Maria Alfreda, personagem que chegará a ser fantasma. É assim A Sala Magenta, o novo romance de Mário de Carvalho, que não publicava desde 2003.

Aqui se fala de cinema, sacrifícios humanos, apartheid sobre as mulheres, leituras, trevas e Luzes. Ao falarmos de tudo isto, acabámos por falar do(s) tema(s) deste romance. A conversa serpenteou na penumbra de um escritório lisboeta onde o escritor, 63 anos, já não exerce advocacia.

De onde vem a sua aproximação ao cinema?

Recordo-me de acabarem as aulas no Liceu de Gil Vicente, à tarde, e parte da minha turma do liceu ir a correr desvairadamente para o cinema Royal, que ficava ali na Graça. Íamos ver uma sessão dupla, estava-se ali a tarde toda. Eu sou formado pelo cinema, desde novo. O meu imaginário tem que ver com o cinema. Provavelmente, sonho já com enquadramentos.

Quando pensa nessa formação, ocorre-lhe o cinema clássico americano, o italiano, que filmes?

Fui formado pelo cinema, pela banda desenhado, por um certo tipo de leituras… Desses tempos, dessas sessões tumultuosas, lembro-me sobretudo dos westerns, de filmes de gangsters... Na altura, a rapaziada entusiasmava-se, ria, comentava o filme, intervinha… O cinema, digamos, faz parte da minha criação. Mas devo dizer que não sou um cinéfilo. Não sou um beato do cinema, que não pensa noutra coisa e tem na cabeça um catálogo de filmes e realizadores. Não sou beato disso, nem de coisa nenhuma. Da literatura também não.

Lembra-se do primeiro filme que viu?

Os psicólogos e psiquiatras dizem que não é possível termos memórias anteriores aos três anos. Mas, quer queiram, quer não, acontece que eu tenho. E uma dessas memórias é a de um cinema de Setúbal. Estava com os meus pais. Lembro-me que alguém atirava uma corda para um galho de uma árvore, provavelmente para enforcar alguém, e havia uma roda de uma carruagem que andava ao contrário, aquele efeito do cinema em que as rodas desandam. Lembro-me perfeitamente de ter ficado intrigado com a roda a andar ao contrário... Guardava esta imagem comigo, e mais tarde reconheci-a, voltei a ver esse filme, mas não me recordo qual era.

E não se imagina sentado na cadeira do realizador?

Não, de forma nenhuma. Tenho a consciência dos meus limites. Assim como sei que poucos realizadores conseguem escrever o argumento, ou a música de um filme, também eu não conseguiria organizar as imagens de forma artisticamente relevante, montá-las, encontrar o ritmo adequado… Há certos dons, creio eu, que nascem com as pessoas. O ser capaz de encontrar o ângulo para uma imagem, é um dom. E eu não o tenho. Visualizo tudo, mas o pôr em prática, o ser capaz de dispor as coisas para conseguir esse resultado… Não tenho o menor jeito para fotografar, nem para filmar. A minha intervenção vai até ao plateau, mas não entra lá. Quando muito faço o argumento, o resto é para os outros. O cinema é uma arte coral, o bom realizador é aquele que se rodeia de tipos melhores que ele, cada qual com funções diferentes. Isto vai de par com uma grande desconfiança minha em relação a uma insistência na noção autoral do cinema. Há decerto uma condução do filme, há sem dúvida alguém a quem o filme deve ser atribuído, mas isso não implica que não haja contribuições valiosíssimas de outros – da música, do argumento, da direcção de fotografia, e por aí fora… – que marcam profundamente o resultado final. Um dos talentos que se exige a um realizador é saber coordenar essas competências todas. E não escrever na película como quem escreve uma folha, equiparado a um escritor… Isso foi uma ideia que foi lançada e carregada pela Nouvelle Vague, que tem o seu lugar na história das ideias e das discussões sobre cinema, mas que está hoje ultrapassada, desacreditada… Até pela quantidade de epígonos que gerou.

Mesmo que não se deva fazer uma leitura literal do seu livro, fica a ideia de um cinema português que nunca se cumpriu, personificado no Gustavo, em coisas que ele diz… Concorda que há um certo cinema português que nunca chegou a dar aquilo que prometeu?

Se sublinhar essa expressão, 'um certo', está certo... Não digo que não haja um ou outro realizador que fique… Mas o facto é que não temos um cinema de primeira linha, não temos um teatro de primeira linha, não sei se temos uma literatura de primeira linha…, não temos uma ciência de primeira linha. Estatisticamente aparecem umas figuras, de vez em quando, que têm uma grande importância, uma grande projecção, ultrapassam até os limites nacionais. Mas depois não há nada que acompanhe e sustente isso. Não há espessura. Não há escolas, naquele velho sentido de tradição, uma experiência que se entrega e vai passando de geração em geração. Não há uma escola de argumentistas em Portugal, nunca houve. E parece que, de cada vez que se faz um filme, as pessoas estão a inventar o cinema de novo.

Aquilo a que se chamou Cinema Novo chegou a existir como escola?

Agora até há um Novo Cinema Novo, não é? Como muitas coisas em Portugal, chegou a existir enquanto esperança, enquanto promessa, mas temos os resultados à vista. Não há possibilidade de remover o que está feito. A obra está à vista, avalie-se. Mas a minha personagem não é decalcada do real, não pretende demonstrar nem exibir coisíssima nenhuma, nem adoptar um ângulo sobre o cinema português. Trata-se de uma personagem que poderia existir, é plausível… Há uma ligação à realidade, mas não é uma cópia da realidade. Quem for procurar aquele realizador aí pelas ruas, não o encontra.

Concorda, portanto, que até agora o cinema português, nomeadamente o Cinema Novo, prometeu mais do que deu…

Acontece muitas vezes em Portugal. A própria Revolução do 25 de Abril prometeu mais do que deu [risos]. Estamos a aproximar-nos do tema do meu livro. Há vários temas, mas um deles é esse: a inconclusão. Nada acaba por se cumprir. A promessa de vida daquela personagem, do Gustavo, e a esperança que ele chegou a ter, envolvido no seu meio boémio, estava convencido de que valia alguma coisa…. E depois, a partir de certa altura, quando faz um balanço da sua vida, bem ponderado, a sós, percebe que falhou. Mesmo as coroas de glória, as participações nos festivais (com nomes que me deram algum trabalho a inventar…), acabaram por soçobrar, e ele teve a consciência disso… Um dos principais temas do livro, tem muito que ver, então, com essa inconclusão, irresolução, insatisfação. Tem a ver com o ficar sempre muito aquém, e isso vê-se nas relações dele com as mulheres. Há qualquer coisa – um equilíbrio, se quisermos – que nunca se consegue atingir. Um desencontro permanente.

Como professor na Escola de Cinema teve uma perspectiva privilegiada sobre o que a nova geração está a fazer? Há grandes mudanças no cinema português?

Continua a ser uma coisa de indivíduos, de talentos individuais. Mas é preciso dizer que tem havido um esforço tremendo. A nível das escolas de cinema, do Estado… Há um movimento interessante ao nível das curtas-metragens, aí há um meio a borbulhar, a funcionar, aparece muita gente interessada… No que toca à longa metragem não mudou assim tanto, apesar dos muitos esforços que se têm feito, e apesar de haver um ambiente diferente do que a minha personagem teria encontrado, que era completamente amadorístico, pessoas que não tinham a menor ideia de como se construía um guião, do que é estruturar uma narrativa, estavam logo disposto a fazer um filme, e a filmar! [risos] Consideravam-se, por vezes tão geniais, que nem precisavam de guiões, chegavam ao plateau e decidiam onde é que se punha a câmara, o que iam filmar… Os resultados estão à vista. E penso que neste momento ainda não temos uma série de valores consolidados. Mesmo que apareça um ou outro nome com impacto, que nos dá esperanças, não há uma segunda linha, uma terceira linha, uma quarta linha… Se pensarmos por exemplo na pintura holandesa do século XVI, ou nos mestres italianos, conhecemos meia dúzia de nomes, mas depois há outros, e outros, e outros, muitos bons também… Aqui em Portugal não há isso. Há um excesso de génios, e atropelam-se uns aos outros! [risos] Isso dá mau resultado, esse excesso de genialidade é capaz de ser um bocadinho inibidor.

Como é a sua relação quotidiana com o cinema? Vai muito às salas ou prefere o DVD?

Vou pouco ao cinema. Tenho horror ao cheiro do milho frito, fico irritado ao ouvir as pessoas a tasquinhar pipocas ao meu lado… E estou a preferir ver filmes em casa. Mas aquelas imagens não foram concebidas para serem vistas em pequeno ecrã. Perco um bocado com isso. Mas ganho com a possibilidade de voltar atrás, parar, rever, ver várias vezes seguidas… Ganho com a capacidade de manipular. É das boas características dos tempos de hoje. Muitos dos realizadores de agora, são formados assim, a ver e a rever… Coisa que antes não podíamos fazer.

O último filme que vi em sala foi o Woody Allen. Habitualmente não perco um Woody Allen, acho que é um dos grandes génios do cinema de hoje. Há ali um grande engenho, em ter as ideias e saber pô-las em prática.

E a sua relação com os livros, como é? É um leitor compulsivo, disciplinado, salta de uns livros para outros?

Sou um leitor, como sempre fui, completamente eclético, anárquico, capaz de deixar, muitas vezes, um livro a meio, e depois voltar a pegar-lhe… Capaz de debicar, aqui e além. Não tenho a preocupação de estar à moda, pelo contrário. Se tenho algum pedantismo é o de nunca ler o que toda a gente está a ler, quase faço questão nisso. Mas também não tenho muitos mais… E estou numa idade já, em que releio muito.

Não gosta de procurar coisas novas, descobrir? Prefere voltar ao que já sabe que é seguro?

Naqueles livros que são lidos e relidos, quando são de grandes autores, estamos sempre a encontrar novidades. Parece um lugar comum, mas eu posso exemplificar no concreto. Aconteceu-me recentemente com o Madame Bovary, e também com um outro romance que tinha lido na adolescência. Que é estar a visualizar o que eu tinha imaginado na altura, e ao lado, como num ecrã dividido, o que estou a visualizar agora. É interessante ver, comparar, como o livro se projectava em determinada altura, e como o faz agora. E descubro coisas… Agarro, por exemplo, n'Os Maias muitas vezes, n’O Retrato de Ricardina, de Camilo. Também vou muitas vezes ao Aquilino Ribeiro. É um bocado para me assegurar de que houve píncaros muito altos a que a nossa literatura chegou. O tratamento da língua naqueles autores é muito estimulante, mostra que se pode ir, de facto, muito longe.

Nessa leitura anárquica e indisciplinada há alguma descoberta recente que valha a pena partilhar?

Nestas coisas não corro a foguetes, não sou influenciável. Exige que eu leia e que eu decida. Posso enganar-me completamente, mas é a minha leitura. Há pouco tempo gostei muito de ler Phillip Roth, e um conto de Ian McEwan, que por acaso até é um autor da moda…

E na escrita? Também é anárquico e indisciplinado? Gosta de escrever no escritório, em casa?

Não, escrevo em casa e só de madrugada. Só consigo escrever a partir das duas da manhã… Este livro foi escrito como se estivesse a acumular, a carregar, coisas durante o dia e depois as descarregasse às duas da madrugada. Preciso de silêncio absoluto, tenho quase medo de me sentar para escrever e, ao fim de quatro minutos, ser interrompido…

E reescreve muito? Por exemplo em A Sala Magenta…

Sim, reescrevo muito. A Sala Magenta foi muito reescrito, ponderado palavra a palavra. A ponto de eu não saber se não teria sido demasiado reescrito. Porque a partir de certa altura começa a haver esta dúvida: será que a primeira fórmula não era mesmo a melhor, depois de termos experimentado todas… O livro foi sendo estruturado à medida que ia sendo escrito. Sabendo que há certos processos que não são conscientes. A minha experiência já me diz para ter alguma confiança nisso. Mas a escrita acaba por ser muito policiada. Vou muitas vezes ao dicionário, e isto não quer dizer que eu use palavras difíceis, que a minha linguagem seja difícil… Não é. Mas procuro que cada palavra esteja carregada, procuro o equivalente que melhor exprima, mais intensamente, com maior carga, o que quero dizer. Não excluo a possibilidade de, um dia, escrever apenas com o vocabulário básico e elementar, até pode ser uma experiência interessante; mas, simplesmente, se o fizer não será por ignorância, é por opção [risos]. A língua tem, de facto, potencialidades espantosas.

Portanto, quando escreveu a primeira linha d'A Sala Magenta, não tinha na cabeça o guião todo, até ao fim…

Não, apenas umas linhas… As personagens, claro, alguns conflitos que já estão definidos, o ambiente também. Há um fil rouge ainda ténue, um bocado esbatido. Às vezes já sei qual é o final, mas há muita coisa que vai vindo à tona enquanto escrevo…

Os seus últimos livros são percorridos por uma grande ironia em relação a certas personagens. Neste, não há tanto a ironia mas mais um desencanto… Não tem a espécie humana em muito boa conta, pois não?

A espécie humana? Se compararmos com outras, até me parece que não estamos assim muito mal [risos]… Vamos lá a ver: nós já não aceitamos o canibalismo. Já não fazemos o sacrifício humano – os romanos ainda faziam… Nós já não admitimos sequer essa ideia. Ainda há pouco mais de cem anos, dizia-se que o abolicionismo era antieconómico, e era absolutamente legítimo argumentar isso, a palavra abolicionista até era pejorativa. Hoje não há escravatura, ou pelo menos não há ninguém que a confesse e a defenda. É um progresso. Já não nos devoramos uns aos outros, não fazemos sacrifícios humanos… Portanto, isto não está mau. Podia estar pior. Aí tem uma apreciação sobre a espécie humana.


continua


Última edição por bitaites em Seg Maio 05, 2008 1:52 am, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Entrevista a Mário de Carvalho   Seg Maio 05, 2008 1:47 am

continuação




Uma pessoa com profundas convicções comunistas, não tem que ter uma fé muito grande no Homem, na humanidade?

A fé, aí, significa confiança… Mas não era tanto confiança na humanidade inteira, era a confiança na classe operária. A fórmula usada quando eu tinha um activismo político mais intenso era essa. Confiança na classe operária e às vezes, com uma derivação: a confiança nas massas. Expressão com que embirro um bocado e sempre embirrei. Era mais isso. Sim, eu tenho confiança no futuro. Há-de haver um dia, provavelmente, em que, assim como abandonámos a escravatura e o canibalismo, consideraremos a morte obscena, e a humilhação do outro obscena. Mas isto ainda está para durar… Pelo que estamos a ver à volta, pelo fervilhar de guerras, de situações que continuam a existir, como o apartheid… Há países em que se pratica o apartheid sobre as mulheres, isto tem que ser dito. Já se correm-se riscos por dizê-lo, mas é a verdade, há uma parte do mundo em que se pratica o apartheid, perante a complacência e a distracção de uma outra parte do mundo, que não encara o fenómeno na sua dimensão real. E eu tenho esperança de que estas coisas sejam removidas, que o uso da violência para fazer impor o poder acabe por ser tão obscena como são hoje os sacrifícios humanos, por exemplo…

Essa confiança no futuro mostra um grande optimismo que não costuma revelar...

Grande, acha? Tenho algumas razões para crer nisto. A Idade Média foi ultrapassada, aqui na Europa, conseguimos ultrapassá-la… E o Iluminismo preponderou, dos salões franceses irradiou a filosofia das Luzes. E hoje, já não somos tratados a pontapé aí na rua pelos lacaios de um qualquer senhor… Tivemos a Revolução Francesa. Há quem queira regredir, voltar para trás, e fazer soçobrar todos os valores alcançados no Iluminismo, mas o facto é que aqui chegámos. E provavelmente é preciso fazer, noutros lados do mundo, esta Revolução – falo da revolução das mentalidades, e dos espíritos… Enfim, esperemos que, por todo o lado, os valores do Iluminismo sejam enfim retomados. Costumo falar dos valores do humanismo, e devo dizer que não são, necessariamente, os valores do marxismo-leninismo… E devo dizer que as minhas fortes convicções comunistas nunca foram muito ortodoxas, depois do 25 de Abril. Dei provas públicas disso. E, aliás, já não pertenço ao partido há sete anos… Houve razões para isso.

Ainda há comunistas?

[Pausa] Acho que sim, era mau que não houvesse. Era mau que em Portugal não houvesse um Partido Comunista com uma presença forte. E há zonas do mundo em que a falta dessa voz em determinado momento ainda se faz sentir. Se a América não tem um serviço nacional de saúde, é porque em determinada altura o partido comunista foi ali completamente reprimido, se há certo tipo de manifestações artísticas que não se praticaram, certos livros que não se escreveram, certas estruturas que não foram criadas, e um certo terceiro-mundismo que continua, apesar de tudo, naquele país, é porque houve ali qualquer coisa que, a certa altura, foi castrada. Fez falta, ali, aquela voz…

Mesmo não sendo maioritária.

Especialmente não sendo maioritária! [risos]

O que é que o angustia, ou assusta, quando pensa no tempos dos filhos e netos dos seus netos?

Não sabemos o que vem aí, não. Isto é completamente opaco. Quando eu era jovem, quando tinha 20 anos, a 2ª Guerra Mundial tinha sido há pouco tempo e parecia distante, distante… O facto de haver agora um vilão internacional nomeado – o tal Bin Laden – é qualquer coisa que me parece romanesca, e própria dos romances populares do princípio do século (Fatômas, o imperador Ming!, um vilão que se nomeia). Eu nunca pensei chegar assim ao século XXI, o ano 2000 era assim para nós uma meta luminosa, e quase de ficção científica… Esta ideia de que os nossos filhos podem ter uma vida pior do que a nossa, é uma coisa nova. A ideia de que as gerações não tendem a progredir. Os meus pais não eram licenciados, eu sim, as minhas filhas também, mas os meus netos, vamos lá a ver, já não há assim nenhumas garantias de que as coisas tendem sempre a melhorar, e a progredir... E o mundo está a sofrer transformações vertiginosas. Por exemplo, a Internet, ninguém previu a Internet. Um sítio utópico, que não existe, não ocupa espaço, em que está tudo, a possibilidade de comunicar instantaneamente com um neozelandês... Se pensarmos nalguns desenvolvimentos que pode haver a nível da biologia, e dos híbridos, estou certo que, em muitas coisas, o que vai acontecer é hoje inimaginável por nós. Já cá não estarei… É uma incógnita… Estes cinco mil anos não são suficientes para compreendermos, para fazermos previsões. Mas chegámos até aqui porque, a pouco e pouco vamos vencendo o terror e o horror, com a possibilidade de ele sempre regressar, é verdade, de ele se manifestar por todo o lado… E, se quer que lhe diga, penso que a grande diferença entre a esquerda e a direita está nisto: ou nos conformamos com o terror, o horror, a miséria, a humilhação, a guerra, ou achamos que temos que dar sempre mais um passo. E temos feito isso até agora, com recuos, com súbitas quedas…Há um provérbio chinês, sobre a verdade, que diz: «Mesmo que não consigas alcançá-la, nunca a percas de vista».

Há esperança, portanto.

Sim. Aqui há muitos anos escrevi um artigo sobre os «amanhãs que cantam», e dizia, mas o que é querem que os amanhãs fizessem, que grunhissem? Vive-se hoje muitíssimo melhor do que na Idade Média. Mas nem é preciso recuar tanto… Se compararmos os tempos de hoje com tempos que eu vivi, há uma diferença abissal. Chegar a uma vila, a terra dos meus pais, e haver um único carro, o carro do médico. Iam imensos moços a correr atrás do carro, que era uma novidade, rotos, descalços. Os brinquedos eram como vemos agora em África, coisas de arame, que os miúdos fazem… Havia fome, miséria. E não foi há muito tempo. Eu assisti a uma transformação no País perfeitamente espectacular. Podemos dizer que a nossa vida hoje não tem nada a ver com aquele quotidiano triste, e vil, dos anos 50, 60… Agora, o nosso problema, não é a comparação com o que éramos, com o nosso passado, é a comparação com os outros, e aí, de facto, há uma falha que me perturba e incomoda. Porque é que neste país nunca se cumpre um contrato? Porque é que os recursos foram abocanhados por um grupo de interesses, com corrupção?

Voltamos, então, a um dos temas do livro, as tais promessas por cumprir, colectivas ou individuais…

Sim, aquilo que se perdeu e nunca mais na vida se pode recuperar, não é? Se calhar estas são preocupações que emergem com as mais diversas formas e fórmulas…

A literatura também é isso.

Quer nós queiramos quer não, não podemos deixar de ser homens do nosso tempo… Neste livro é procurado um ritmo sereno, com uma frase larga e espaçada. Sempre o mesmo ponto de vista, pelos olhos da mesma personagem, o Gustavo. Não há sinais de diálogo, eles aparecem inseridos dentro do texto. Isto também tem que ver com o ambiente, e com aquela lagoa, a floresta mediterrânica, bonita, aprazível aparentemente, mas que à noite toma contornos sinistros. A própria lagoa pode funcionar à noite como um abismo negro.

Parece que quer continuar a frequentar a lagoa Moura nos próximos livros… É verdade?

Eu defendo-me muito de assumir compromissos… Mas a lagoa Moura… Há várias personagens por ali, e talvez valesse a pena ir espreitar… Quem é aquele Fahrid, como é que foi ali parar, e aquele jovem que aparece com um MP3, vestido muito à vontade, e o marinheiro que chega, e aquela viúva?… Há ali um universo, mas por enquanto… começámos.

Já colocou ali essas personagens a pensar numa continuação?

Sim, de certa maneira. Mas não tomo nenhum compromisso. Se alguma delas se manifestar, talvez a faça descer, como nas mesas do espiritismo [risos].

Revista Visão
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