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 Em nome da Escrita Portuguesa

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ypsi



Mensagens : 889
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MensagemAssunto: Em nome da Escrita Portuguesa   Ter Set 18, 2007 3:15 am

Aquilino Ribeiro


Homenagem ao cidadão e ao homem


O escritor Aquilino Ribeiro, que será amanhã sepultado no Panteão Nacional, foi, nas palavras do filho, “um cidadão interventor” e “uma figura marcante” na defesa da liberdade, mas o seu maior contributo foi para a literatura portuguesa.
Ana Nunes Cordeiro*

“O meu pai foi um homem cujo comportamento cívico poderá servir de modelo àquilo que designamos como cidadania (...) foi um combatente pela república e pela democracia”, mas “cidadãos impolutos combatentes houve milhares, escritores com a altura que ele atingiu é que talvez não tenha havido muitos”, disse Aquilino Ribeiro Machado, de 77 anos, em entrevista à Lusa.

Segundo o filho do escritor, “no percurso da sua vida (1885-1963), alguns passos estão evidentemente relacionados com a história portuguesa recente e os mais importantes ligam-se à defesa da liberdade, contra a tirania, a prepotência e a ditadura que, ao longo desse período, dilaceraram o País”.

“Foi um combatente pela república na altura em que a monarquia exangue tinha entrado numa fase repressiva, violenta, e um combatente pela democracia, tal como era encarada ao tempo, na sua imagem redentora, logo que a república correu perigo, no tempo do Sidónio [Pais] e, sobretudo, depois do 28 de Maio [de 1926, data do golpe que pôs termo à I República e originou a auto-denominada Ditadura Nacional, depois transformada, após a aprovação da Constituição de 1933, em Estado Novo], referiu.

E combateu “contra o salazarismo e o regímen em que se estribava com os meios que lhe eram acessíveis e eram possíveis a um cidadão individualmente considerado, não sendo membro de qualquer organização”, o que “fez dele uma figura marcante”, frisou Aquilino Ribeiro Machado, o primeiro presidente da Câmara Municipal de Lisboa democraticamente eleito.

Manifestando o seu júbilo pela trasladação do pai para o Panteão, local onde costumava ir passear com ele aos domingos quando era pequeno, o único filho do segundo casamento do escritor, com a filha do Presidente da República Bernardino Machado, entende que se trata de “uma homenagem nacional ao cidadão, e ao homem, que contribuiu para que os portugueses se sintam identificados consigo mesmos através do instrumento que têm para exprimir a sua singularidade, que é a língua”.

Citou, em seguida, Óscar Lopes, “uma autoridade respeitável na história da literatura portuguesa”, para quem o século XX teve “dois escritores cimeiros”. “Um foi o Fernando Pessoa, na poesia, outro foi o Aquilino Ribeiro, na prosa, qualquer deles representando, de certo modo, o carácter e a maneira de ser dos portugueses: enquanto o Pessoa era ‘um escritor coruja’, o meu pai era ‘um escritor cotovia’”, observou.

“Havia – defendeu – um certo lado nocturnal muito característico e até prevalecente na literatura portuguesa que a obra do Pessoa reflecte e havia um lado de exaltação daquilo que a vida permite e que os homens devem ter direito de reclamar para serem felizes e gozarem o esplendor do Sol. E o meu pai representava este segundo tipo de escritor, infelizmente não muito constante na literatura portuguesa, na qual o lado nocturno prevalece”.

Recordando o famoso verso de Fernando Pessoa «A minha pátria é a língua portuguesa», o filho do autor de «A Casa Grande de Romarigães» sustentou que, “se houve alguém que viveu a língua portuguesa, foi, indiscutivelmente, Aquilino Ribeiro”.

“Ele cultivou-a – insistiu – utilizando não apenas a língua que fazia parte da literatura clássica, mas também a da literatura do povo, a literatura oral do povo, voltando a dar vida a expressões antigas que ele diz que faziam cócegas, que tinham caído no desuso, mas estavam cheias, ínsitas, de ciência e de conhecimento das coisas – porque o conhecimento das coisas é um dom que as gerações vão transmitindo entre si, uma ciência de experiência feita”.

Destacou ainda na obra de seu pai “a inovação”, “a capacidade de fazer uma síntese, uma simbiose das duas fórmulas da língua, de lhes dar uma expressão clássica e, com isso, contribuir mais para a compreensão das coisas, que é através da língua que se afirmam”.

“Nós pensamos, apesar de tudo, com palavras e, na medida em que dispomos de maior número de palavras e mais ajustadas aos sentimentos ou à descrição das coisas, maior é a nossa visão do mundo. E aí, ele tinha de facto uma qualidade privilegiada, indiscutivelmente”, sublinhou.

Capacidade de observação extraordinária

Uma das características que distinguem a obra de Aquilino Ribeiro é a impressionante galeria de personagens que criou, do mundo rural e urbano, fruto, segundo o filho, de “uma capacidade de observação e retenção extraordinária”.

“O meu pai, perante um cenário, uma paisagem que percorresse e que tivesse deixado para trás aparentemente com um olhar distraído, mais tarde, se vinha a talho de foice descrevê-la num dos seus livros, fazia-o com uma fidelidade e uma impressividade que parecia que tinha andado ali não propriamente um escritor mas um fotógrafo – um fotógrafo que tivesse, com a sua objectiva, a preocupação de salientar o que há de mais significativo e mais importante na imagem”, explicou.

Reconhecimento

Na sua perspectiva, “se é através da língua que é possível afirmar os valores que correspondem a uma identidade portuguesa, é no uso correcto dessa língua que essa identidade pode ganhar corpo”.

“Ora – prosseguiu – nós queremos ser cidadãos do mundo e ganhar com o que o mundo nos pode trazer, mas queremos também tirar partido e aproveitar aquilo que é nosso e que é singular e que pode enriquecer o que vamos buscar a outros horizontes. E essa qualidade, para que ele contribuiu muito, merece reconhecimento do País, pelo que a ida do meu pai para o Panteão não é, sob o meu ponto de vista, também, outra coisa que o reconhecimento, que a constatação dessa dívida que há com um homem deste quilate”.

Homem simples

Quanto aos comentários dos detractores da trasladação de Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional, segundo os quais “um bombista”, “um assassino”, não deveria ter acesso a tal honra, o filho responde, sorrindo, que “a vida de um homem é constituída por muitas etapas”.

“O meu pai, quando veio para Lisboa, do ambiente fechado da província, tinha 21 ou 22 anos. Com essa idade, citando uma frase muito batida, ‘todo o homem é incendiário e mais tarde será bombeiro dos fogos que acendeu’, e é natural que na ânsia e no ideal de mudar o mundo e de criar uma sociedade mais justa, ele se identificasse com os revolucionários que viessem, aqueles mais impacientes, mais insubmissos”, argumentou.

“Ele era um homem que vinha do mato, bravio e homem de acção por natureza. É natural que não fosse alinhar pelo pensamento mais conservador da época. Dir-se-á: ‘Isto é um pensamento que depois, ao longo da sua vida, se manteve, foi sempre um homem de intervenção directa’. Não, não foi. A vida dele prova-o”, comentou.
Aquilino foi preso duas vezes, ao longo da vida, “fugiu em condições aventurosas em qualquer dessas situações de prisão, interveio com armas na mão contra o regímen saído do 28 de Maio, por duas vezes – no 7 de Fevereiro [de 1927], em Lisboa, e mais tarde, na revolta do regimento do Pinhel [1928], pela qual foi preso e de onde fugiu, da prisão do Fontelo, em Viseu – essa foi a parte activa”, relatou, resumidamente.

Depois disso – esclareceu – “passou mais de meio século, em que ele levou uma vida de interveniente dentro do seu campo de intervenção, que era o do tratamento da palavra escrita e da solidariedade com aqueles que sofriam as agruras de um regímen que não se compadecia com a liberdade de palavra”.

Candidatura ao Nobel

Quando, em 1960, Aquilino Ribeiro foi proposto como candidato ao prémio Nobel da Literatura, foi-o, de acordo com o filho, “como uma resposta dos escritores portugueses mais notórios e mais sonantes, porque o regímen lhe moveu um processo judicial pela publicação de «Quando os Lobos Uivam»”.

“O meu pai era um homem simples que não perseguia nenhuma espécie de honrarias, nem era afectado por vaidades de corporação e essa foi uma maneira de os escritores portugueses testemunharem a sua solidariedade e entenderem que ele era o primeiro entre todos e que atacando-o, atacavam todos. Por isso propuseram-no para uma distinção que naturalmente correspondia a esse conceito”, justificou.

Na altura, não se soube, mas o júri do Nobel mostrou-se interessado e enviou a Portugal um representante da Academia Sueca. “Eu sei isso –contou o filho do escritor – porque o João Gaspar Simões me contou que foi um dos interpelados por esse representante da Academia Sueca e que eles estavam na intenção de dar o prémio ao meu pai. Mas não deram, porque entretanto se tinha levantado uma campanha paralela para que fosse considerada a candidatura que tinha sido apresentada – e de que ninguém sabia – do Torga”.

Apoiava a candidatura de Miguel Torga “muita gente de bem, mas sobretudo os homens de direita, que não queriam, evidentemente, que o processo em volta do Aquilino Ribeiro degenerasse em fraqueza do regímen, e os jornais de direita fizeram a campanha contra. Ora, os representantes da Academia Sueca são prudentes: quando há divergências deste género, não atribuem o prémio, pura e simplesmente”, observou.

“Sei é que quando o Saramago fez uma conferência de agradecimento ao povo que acorreu ao cinema Tivoli, disse, quase a começar, ‘Eu sou um homem de sorte, porque o Aquilino Ribeiro já não é vivo. Porque se fosse vivo, era ele que recebia o Nobel’”, salientou.

Sobre as suas relações com o pai, disse que “foram excelentes, sempre”: “Ele tratava-me por igual, e às vezes até se esquecia de que eu era mais novo que ele, ou seja, como era um homem temperamental, às vezes descarregava sobre mim a sua impaciência ou a sua inconformidade, como se eu estivesse à altura de responder. Mas eu nunca me queixaria disso, nem me queixo”

1º de Janeiro (18-09-2007)
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MensagemAssunto: Re: Em nome da Escrita Portuguesa   Ter Set 18, 2007 4:53 am

Aquilino Ribeiro merece o Panteão


O historiador Fernando Rosas defende que a acção cívica de Aquilino Ribeiro não pode ser separada da sua escrita e que, se há quem mereça estar no Panteão Nacional, é o escritor, falecido há 44 anos.

"A sua acção cívica é inseparável da do escritor. Toda a sua obra é influenciada pela sua vivência cívica, pelas ideias que traz para a literatura, pela sua maneira de estar no mundo", argumentou Rosas, em entrevista à agência Lusa.

"Penso - ponderou - que não seja possível separar a faceta do Aquilino - o maior escritor da primeira metade do século XX, sem dúvida - da sua faceta do Aquilino de cultura libertária, resistente aos ingleses, anti-plutocrático, e até com simpatias germanófilas, nomeadamente pela cultura e a eficiência alemãs".

Da sua estada em 1912 na Alemanha, fugido de Portugal em 1908, o escritor, assinalou, "guarda uma grande admiração pela cultura alemã, pela maneira de ser e de trabalhar dos alemães, e insurgiu-se contra a humilhação que as potências vencedoras em Versalhes (1918) infligiram à Alemanha".

"Em 1935 - prosseguiu - escreveu uma aparentemente surpreendente "Alemanha ensanguentada", que é um livro de revolta contra a humilhação, em que retomava muitas das alegações do próprio nacionalismo alemão, não explicitamente, mas na leitura dessa revolta contra a humilhação de Versalhes".

Na opinião de Rosas, o anti-britanismo do autor de "A casa grande de Romarigães" assenta nos ideais republicanos e acompanhá-lo-á sempre.

Em 1943, quando edita "Volfrâmio", a personagem alemã surge como um homem impoluto e trabalhador enquanto o inglês como "uma espécie de patife", referiu o historiador e membro da comissão parlamentar encarregada da trasladação de Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional.

Segundo Rosas, esta patenteada anglofobia estará "na origem de um certo afastamento do primeiro conselho central do MUD (Movimento de Unidade Democrática)".

Historiador e deputado do Bloco de Esquerda, Fernando Rosas tem ligações familiares ao autor de "O Malhadinhas", porquanto um seu avô fugiu do país com o escritor, em 1927, ambos disfarçados de mulher.

"Aquilino participa na revolta de republicanos que ocuparam o Terreiro Paço, ele estará com o meu avô, que era um dos dirigentes civis da revolta de 07 de Fevereiro, na ala Oeste. É ferido por um estilhaço de granada, rompe o cerco dos soldados da ditadura às costas do meu avô, e mais tarde passam a fronteira disfarçados de mulher", relatou.

Voltará ao país, clandestinamente, em 1928, e participará de armas em mão na revolta de Pinhel, em Julho.

Aquilino Ribeiro, nascido em 1885, é desde a sua juventude um simpatizante da Carbonária, que "era um grupo de acção revolucionária que recorria à violência armada, que punha bombas, fazia atentados".

"Ele cria amizades nessa área - lembrou Rosas - e envolve-se ao ponto, de uma bomba lhe ter rebentado em casa quando ele a estava a fazer (1907)".

O historiador referiu à Lusa que Aquilino Ribeiro conheceu os regicidas mas não participou directamente no atentado que tirou a vida ao Rei D. Carlos e ao Príncipe D. Luís Filipe, em Fevereiro de 1908.

"Há autores que defendem que os regicidas lhe terão comunicado que iam cometer ao tentado", uma hipótese a não descartar, segundo Rosas, tendo até em conta que ele foi testemunha de registo da filha de Buíça, um dos regicidas.

Aquilino tinha sido já testemunha de registo da filha de Buíça e foi ao escritor que o regicida a entregou, por testamento, após ter sido condenado à morte.

O outro regicida, Costa, segundo escreve o próprio Aquilino em "Um escritor confessa-se", lhe terá comunicado que ia acontecer o atentado.

"Não há qualquer prova empírica que nos possa dizer que o Aquilino esteve no regicídio que envolveu cinco pessoas mas, aparentemente, nada nos autoriza a dizer que ele era uma delas", enfatizou Rosas.

"No regicídio só houve uma carabina, a do Buíça, que matou o Rei ao primeiro tiro e, ao segundo, o Príncipe herdeiro D. Luís Filipe", asseverou o historiador, segundo o qual não tem fundamento a ideia de Aquilino ter sido a "terceira carabina".

Aquilino exilou-se em 1908 quando fugiu depois de ter sido preso e acusado de bombista, em 1927, depois do cerco ao terreiro do Paço e em 1928 depois da revolta de Julho.

"Volta de mansinho" em 1932, primeiro para a sua terra natal, Carregal de Tabosa e mais tarde a Lisboa, sendo amnistiado pouco depois.

O autor de "Terras do Demo" só regressa à intervenção política como apoiante da candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República (1948), "mas não com muito destaque".

"Na primeira linha - disse - é com Humberto Delgado que reaparece. Delgado é um homem que o entusiasma completamente, participou de corpo inteiro na grande esperança do delgadismo, e acreditava que só com o delgadismo se deitava abaixo o Salazar".

A obra "Quando os lobos uivam" (1958), na leitura de Rosa, "é muito influenciada por este ambiente político".

"É um livro de forte crítica à brutalidade da Guarda Nacional Republicana, ao abuso espantoso que foi a florestação dos baldios, que eram o sustento de muita gente", descreveu.

O livro foi apreendido e Aquilino alvo de um mandato de captura, mas o regime amnistia-o.

"Nessa altura já Aquilino era um respeitadíssimo escritor - tinha sido aliás proposto para o Nobel - e o regime não quis levantar ondas", esclareceu Rosas.

O escritor, que desde a década de 1940 viveu exclusivamente dos livros que escreveu, foi sempre fiel, segundo Rosas, "a um ideal libertário, a uma insurgência contra a autoridade, essa recusa do poder do mais forte, teve sempre um olhar solidário para com os mais fracos e a recusa de uma vida dura".

Fernando Rosas definiu Aquilino Ribeiro como "um homem bravo, de grande acutilância, duro, que não era de trato fácil, mas, quando entra nos combates, entra de corpo inteiro, não era um homem de meias tintas".

Quanto à trasladação do seu corpo para o Panteão Nacional, quarta-feira, afirmou: "Se há um Panteão, acho que é uma homenagem que a República lhe deve como cidadão, como homem de cultura e de liberdade. Se há alguém que tem direito a lá estar é Aquilino!".

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MensagemAssunto: Re: Em nome da Escrita Portuguesa   Ter Set 18, 2007 4:55 am

Aquilino Ribeira é figura marcante da história


O escritor Aquilino Ribeiro, que será quarta-feira sepultado no Panteão Nacional, foi, nas palavras do filho, "um cidadão interventor" e "uma figura marcante" na defesa da liberdade, mas o seu maior contributo foi para a literatura portuguesa.

O escritor Aquilino Ribeiro, que será quarta-feira sepultado no Panteão Nacional, foi, nas palavras do filho, "um cidadão interventor" e "uma figura marcante" na defesa da liberdade, mas o seu maior contributo foi para a literatura portuguesa.

"O meu pai foi um homem cujo comportamento cívico poderá servir de modelo àquilo que designamos como cidadania (...) foi um combatente pela república e pela democracia", mas "cidadãos impolutos combatentes houve milhares, escritores com a altura que ele atingiu é que talvez não tenha havido muitos", disse Aquilino Ribeiro Machado, de 77 anos, em entrevista à Lusa.

Segundo o filho do escritor, "no percurso da sua vida (1885-1963), alguns passos estão evidentemente relacionados com a história portuguesa recente e os mais importantes ligam-se à defesa da liberdade, contra a tirania, a prepotência e a ditadura que, ao longo desse período, dilaceraram o país".

"Foi um combatente pela república na altura em que a monarquia exangue tinha entrado numa fase repressiva, violenta, e um combatente pela democracia, tal como era encarada ao tempo, na sua imagem redentora, logo que a república correu perigo, no tempo do Sidónio [Pais] e, sobretudo, depois do 28 de Maio [de 1926, data do golpe que pôs termo à I República e originou a auto-denominada Ditadura Nacional, depois transformada, após a aprovação da Constituição de 1933, em Estado Novo], referiu.

E combateu "contra o salazarismo e o regímen em que se estribava com os meios que lhe eram acessíveis e eram possíveis a um cidadão individualmente considerado, não sendo membro de qualquer organização", o que "fez dele uma figura marcante", frisou Aquilino Ribeiro Machado, o primeiro presidente da Câmara Municipal de Lisboa democraticamente eleito.

Manifestando o seu júbilo pela trasladação do pai para o Panteão, local onde costumava ir passear com ele aos domingos quando era pequeno, o único filho do segundo casamento do escritor, com a filha do Presidente da República Bernardino Machado, entende que se trata de "uma homenagem nacional ao cidadão, e ao homem, que contribuiu para que os portugueses se sintam identificados consigo mesmos através do instrumento que têm para exprimir a sua singularidade, que é a língua".

Citou, em seguida, Óscar Lopes, "uma autoridade respeitável na história da literatura portuguesa", para quem o século XX teve "dois escritores cimeiros".

"Um foi o Fernando Pessoa, na poesia, outro foi o Aquilino Ribeiro, na prosa, qualquer deles representando, de certo modo, o carácter e a maneira de ser dos portugueses: enquanto o Pessoa era `um escritor coruja`, o meu pai era `um escritor cotovia`", observou.

"Havia - defendeu - um certo lado nocturnal muito característico e até prevalecente na literatura portuguesa que a obra do Pessoa reflecte e havia um lado de exaltação daquilo que a vida permite e que os homens devem ter direito de reclamar para serem felizes e gozarem o esplendor do sol. E o meu pai representava este segundo tipo de escritor, infelizmente não muito constante na literatura portuguesa, na qual o lado nocturno prevalece".

Recordando o famoso verso de Fernando Pessoa "A minha pátria é a língua portuguesa", o filho do autor de "A Casa Grande de Romarigães" sustentou que, "se houve alguém que viveu a língua portuguesa, foi, indiscutivelmente, Aquilino Ribeiro".

"Ele cultivou-a - insistiu - utilizando não apenas a língua que fazia parte da literatura clássica mas também a da literatura do povo, a literatura oral do povo, voltando a dar vida a expressões antigas que ele diz que faziam cócegas, que tinham caído no desuso, mas estavam cheias, ínsitas, de ciência e de conhecimento das coisas - porque o conhecimento das coisas é um dom que as gerações vão transmitindo entre si, uma ciência de experiência feita".

Destacou ainda na obra de seu pai "a inovação", "a capacidade de fazer uma síntese, uma simbiose das duas fórmulas da língua, de lhes dar uma expressão clássica e, com isso, contribuir mais para a compreensão das coisas, que é através da língua que se afirmam".

"Nós pensamos, apesar de tudo, com palavras e, na medida em que dispomos de maior número de palavras e mais ajustadas aos sentimentos ou à descrição das coisas, maior é a nossa visão do mundo. E aí, ele tinha de facto uma qualidade privilegiada, indiscutivelmente", sublinhou.

Na sua perspectiva, "se é através da língua que é possível afirmar os valores que correspondem a uma identidade portuguesa, é no uso correcto dessa língua que essa identidade pode ganhar corpo".

"Ora - prosseguiu - nós queremos ser cidadãos do mundo e ganhar com o que o mundo nos pode trazer, mas queremos também tirar partido e aproveitar aquilo que é nosso e que é singular e que pode enriquecer o que vamos buscar a outros horizontes. E essa qualidade, para que ele contribuiu muito, merece reconhecimento do país, pelo que a ida do meu pai para o Panteão não é, sob o meu ponto de vista, também, outra coisa que o reconhecimento, que a constatação dessa dívida que há com um homem deste quilate".

Uma das características que distinguem a obra de Aquilino Ribeiro é a impressionante galeria de personagens que criou, do mundo rural e urbano, fruto, segundo o filho, de "uma capacidade de observação e retenção extraordinária".

"O meu pai, perante um cenário, uma paisagem que percorresse e que tivesse deixado para trás aparentemente com um olhar distraído, mais tarde, se vinha a talho de foice descrevê-la num dos seus livros, fazia-o com uma fidelidade e uma impressividade que parecia que tinha andado ali não propriamente um escritor mas um fotógrafo - um fotógrafo que tivesse, com a sua objectiva, a preocupação de salientar o que há de mais significativo e mais importante na imagem", explicou.

Quanto aos comentários dos detractores da trasladação de Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional, segundo os quais "um bombista", "um assassino", não deveria ter acesso a tal honra, o filho responde, sorrindo, que "a vida de um homem é constituída por muitas etapas".

"O meu pai, quando veio para Lisboa, do ambiente fechado da província, tinha 21 ou 22 anos. Com essa idade, citando uma frase muito batida, `todo o homem é incendiário e mais tarde será bombeiro dos fogos que acendeu`, e é natural que na ânsia e no ideal de mudar o mundo e de criar uma sociedade mais justa, ele se identificasse com os revolucionários que viessem, aqueles mais impacientes, mais insubmissos", argumentou.

"Ele era um homem que vinha do mato, bravio e homem de acção por natureza. É natural que não fosse alinhar pelo pensamento mais conservador da época. Dir-se-á: `isto é um pensamento que depois, ao longo da sua vida, se manteve, foi sempre um homem de intervenção directa` Não, não foi. A vida dele prova-o", comentou.

Aquilino foi preso duas vezes, ao longo da vida, "fugiu em condições aventurosas em qualquer dessas situações de prisão, interveio com armas na mão contra o regímen saído do 28 de Maio, por duas vezes - no 07 de Fevereiro [de 1927], em Lisboa, e mais tarde, na revolta do regimento do Pinhel [1928], pela qual foi preso e de onde fugiu, da prisão do Fontelo, em Viseu - essa foi a parte activa", relatou, resumidamente.

Depois disso - esclareceu - "passou mais de meio século, em que ele levou uma vida de interveniente dentro do seu campo de intervenção, que era o do tratamento da palavra escrita e da solidariedade com aqueles que sofriam as agruras de um regímen que não se compadecia com a liberdade de palavra".

Quando, em 1960, Aquilino Ribeiro foi proposto como candidato ao prémio Nobel da Literatura, foi-o, de acordo com o filho, "como uma resposta dos escritores portugueses mais notórios e mais sonantes, porque o regímen lhe moveu um processo judicial pela publicação de `Quando os Lobos Uivam`".

"O meu pai era um homem simples que não perseguia nenhuma espécie de honrarias, nem era afectado por vaidades de corporação e essa foi uma maneira de os escritores portugueses testemunharem a sua solidariedade e entenderem que ele era o primeiro entre todos e que atacando-o, atacavam todos. Por isso propuseram-no para uma distinção que naturalmente correspondia a esse conceito", justificou.

Na altura, não se soube, mas o júri do Nobel mostrou-se interessado e enviou a Portugal um representante da Academia Sueca.

"Eu sei isso - contou o filho do escritor - porque o João Gaspar Simões me contou que foi um dos interpelados por esse representante da Academia Sueca e que eles estavam na intenção de dar o prémio ao meu pai. Mas não deram, porque entretanto se tinha levantado uma campanha paralela para que fosse considerada a candidatura que tinha sido apresentada - e de que ninguém sabia - do Torga".

Apoiava a candidatura de Miguel Torga "muita gente de bem, mas sobretudo os homens de direita, que não queriam, evidentemente, que o processo em volta do Aquilino Ribeiro degenerasse em fraqueza do regímen, e os jornais de direita fizeram a campanha contra. Ora, os representantes da Academia Sueca são prudentes: quando há divergências deste género, não atribuem o prémio, pura e simplesmente", observou.

"Sei é que quando o Saramago fez uma conferência de agradecimento ao povo que acorreu ao cinema Tivoli, disse, quase a começar, `Eu sou um homem de sorte, porque o Aquilino Ribeiro já não é vivo. Porque se fosse vivo, era ele que recebia o Nobel`", salientou.

Sobre as suas relações com o pai, disse que "foram excelentes, sempre": "Ele tratava-me por igual, e às vezes até se esquecia de que eu era mais novo que ele, ou seja, como era um homem temperamental, às vezes descarregava sobre mim a sua impaciência ou a sua inconformidade, como se eu estivesse à altura de responder. Mas eu nunca me queixaria disso, nem me queixo".

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MensagemAssunto: Re: Em nome da Escrita Portuguesa   Ter Set 18, 2007 5:21 am

Um assassino regicida, que merecia era estar sepultado nalguma lixeira municipal.
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MensagemAssunto: Re: Em nome da Escrita Portuguesa   Qua Set 19, 2007 7:29 am

Cavaco Silva homenageia grande prosador



O Presidente da República, Cavaco Silva, homenageou hoje o escritor Aquilino Ribeiro, considerando-o «um dos grandes prosadores da literatura portuguesa do século XXI», mas ignorou o seu percurso político de republicano e antifascista.

«Ler Aquilino Ribeiro é ler um certo Portugal, mas é também ler o mundo», afirmou Cavaco Silva nas cerimónias de trasladação dos restos mortais do escritor para o Panteão Nacional, em Lisboa, que se realizaram hoje de manhã.

Perante familiares do autor de «O Malhadinhas», o presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, o primeiro-ministro, José Sócrates, a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, o Chefe de Estado afirmou que esta homenagem a Aquilino é «um acto de homenagem à cultura portuguesa».

E centrou o seu discurso na obra de Aquilino, que «é o universo português».

«Deleitamo-nos com os seus arcaísmos e os seus regionalismos porque nos revemos neles. E porque, apesar do decurso do tempo, continuamos a encontrar o homem português em cada página dos grandes livros de Mestre Aquilino. No fundo, porque ainda nos encontramos a nós próprios em obras imortais como A Casa Grande de Romarigães ou Quando os Lobos Uivam», afirmou.

Para o Presidente, a «vasta obra romanesca de Aquilino Ribeiro, que retrata o mundo rural português de uma forma ímpar», continua actual, «mesmo que desse mundo restem apenas escassos vestígios».

E, além do «público testemunho de admiração por uma obra literária», Cavaco Silva afirmou esperar que «continue a ser lida e acarinhada pelas gerações futuras».

Com a trasladação para o Panteão Nacional, Aquilino Ribeiro junta-se aos escritores João de Deus, Almeida Garrett e Guerra Junqueiro, aos Presidentes da República Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Sidónio Pais e Óscar Carmona, a Humberto Delgado e à fadista Amália Rodrigues.

Diário Digital (19-09-2007)
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MensagemAssunto: Re: Em nome da Escrita Portuguesa   Qui Set 20, 2007 1:56 am

Revolucionário incorrigível ou "terrorista" e "regicida"?




"Aquilino não levava desaforos para casa. Mesmo com mais de 70 anos, dava uma estalada, se necessário fosse, a quem o incomodava".

O retrato de Baptista-Bastos, escritor e jornalista que cultivou uma amizade marcante com Aquilino, é confirmado por numerosos relatos que atestam o carácter inquebrantável do homem que viu a sua admissão no Panteão Nacional ser contestada por um grupo ultraconservador designado Fórum da Democracia Real.

"Considerar herói nacional, propor como exemplo às gerações vindouras, alguém que participou na preparação de atentados terroristas e que foi preso por isso mesmo (...) confunde-nos o espírito de portugueses e de ocidentais, defensores da democracia e dos direitos humanos.

Com esta trasladação, a instauração da República fica equiparada ao acto do regicídio!", escreveram os subscritores da petição on-line, que há poucos dias contava com pouco mais de um milhar de assinaturas, algumas das quais, porém, de credibilidade duvidosa, como a do tristemente célebre Jacinto Leite Capelo Rego...

Que os ímpetos revolucionários de Aquilino foram uma realidade, eis um facto que nem mesmo os aquilinianos mais convictos contrapõem. Contudo, a participação directa do escritor no atentado que vitimou o rei D. Carlos e o seu filho Luís Filipe nunca foi provada, ao contrário do incidente que, um ano antes, em 1907, esteve na origem da sua detenção a deflagração de caixotes de explosivos que se encontravam na sua casa, causando a morte de dois correligionários.

Em circunstâncias rocambolescas, o jovem Aquilino evadiu-se da prisão e viveu tempos de clandestinidade em Lisboa e Paris, como recordou, muitos anos depois, nas suas memórias, intituladas "Um escritor confessa-se".

Dirigente do Centro de Estudos Aquilino Ribeiro e director dos "Cadernos Aquilinianos", Henrique Almeida admite "algum excesso de militância revolucionária" no autor, mas contrapõe dizendo que "os homens de acção foram também os militares de Abril que tenazmente se opuseram ao Estado Novo e possibilitaram a instauração da democracia".

Já Baptista-Bastos apelida a petição posta a circular na Internet como um exemplo perfeito "do reaccionarismo mais paleolítico que se possa imaginar", acrescentando que "Aquilino está muito acima dessas polémicas, que se inserem na desconfiança típica da direita e extrema-direita face aos intelectuais".

O activismo manifestar-se-ia mais vezes, de que é exemplo a participação na revolta frustrada contra a ditadura militar após o golpe de 28 de Maio de 1926.

A perseguição política regressaria à vida de Aquilino Ribeiro já numa fase adiantada da sua existência. Em 1958, o escritor publicou "Quando os lobos uivam", retrato de um regime putrefacto que desencadeou a ira da PIDE. Alvo de censura imediata e respectiva interdição, o livro viria a desencadear um movimento de solidariedade, a que aderiram nomes como Jean-Paul Sartre.

JN (20-09-2007)
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MensagemAssunto: Re: Em nome da Escrita Portuguesa   Qua Out 10, 2007 3:36 am

Efémero

Por Mário Cláudio


Ausente do país no dia da trasladação dos restos mortais de Aquilino Ribeiro, empreendida com a oportuna e possível solenidade, e correndo hoje o risco de me revelar jornalisticamente incorrecto, insisto em recolocar os temas da persistência do nome, e da duração da obra.

Figura de intransponível referência para duas gerações, Aquilino não terá recebido o que merece, mesmo votada ao esterco a baboseira de um insulto à qualidade da sua escrita, largada por um dos habituais contabilistas do talento que não possuem.

E a honra da sua memória que deveria ter sido operada por eventos menos ostentatórios, mas de certeza mais afáveis ao autor de 'A Casa Grande de Romarigães', continuará por algum tempo ainda a clamar por melhor defesa.

A geração a que pertenço, e que se situa agora entre os feiticeiros da tribo e os guerreiros recém-circuncisos, acostumou-se a erigir um punhado de vultos, e a atribuir-lhe, o que constitui recorrente impulso da juventude, a indiscutível eternidade.

Ferreira de Castro alcandorava-se como campeão de vendas, e como o português mais traduzido, o que necessariamente lhe valeria a irritação da crítica pátria, desvalorizando-o por 'escrever mal'.

Mas incluíam-se também no friso José Régio e Miguel Torga, divididos ambos entre prosa e poesia, e zurzidíssimos pelos recenseadores, e logo depois Fernando Namora, um 'comercial', malquisto pelos bem-pensantes, e Carlos de Oliveira, mais ou menos fustigado até à publicação em 1978 de 'Finisterra', título que uma ensaísta profetizou que bloquearia a nossa literatura ao longo dos cinquenta anos seguintes.

Os marginais, aqueles que não contribuíam para engordar a bolsa dos editores, como Irene Lisboa e Vitorino Nemésio, quando não intervinham motivos políticos, suscitavam entretanto geral aplauso nas colunas da imprensa.

O que sobeja destes maiores, e daquilo que produziram, que nos esclareça acerca da sobrevivência da sua obra, ou sequer da lembrança do seu nome?

Não será fácil averiguá-lo num país onde escasseiam os estudos de sociologia da literatura, e onde falta a investigação na área da sociologia da leitura.

Mas sabe-se que, exceptuando-se um mínimo de casos, o de Régio, o de Torga, ou o de Irene Lisboa, objectos de planos editoriais, na sua quase globalidade mais destinados a estudiosos do que a "tutti quanti", a maciça bibliografia dos citados acha-se inencontrável nas prateleiras das livrarias.

Transferidas para o Panteão Nacional, as ossadas de Aquilino Ribeiro irão fazer companhia às de Almeida Garrett, de João de Deus, de Teófilo Braga, e de Guerra Junqueiro, todos eles depositários dessa estima sem afecto, segregada pelos amantes da monumentalidade, indiferentes às razões da inteligência, ou da imaginação.

E é por regra no falso respeito aos fetiches que se apoia a homenagem farfalhuda, de costas deliberadamente voltadas à continuidade da vida, isto sobretudo quando esta exige um esforço de alma, ou um risco de capitais.

Ter-se-á por isso festejado um onomástico, ou terá descido a segunda pedra tumular sobre um esplêndido batalhador das letras ?

Conheci um coleccionador de livros e curiosidades que por alturas de uma outra trasladação, a de Florbela Espanca, do cemitério de Matosinhos para o de Vila Viçosa, havendo subornado um coveiro, conseguiu que lhe fossem parar às mãos uns quantos ossinhos da sonetista, nos quais se engastavam farrapos de um vestido de brocado branco.

Retirava-os de uma caixa de cartão que guardava num armário por baixo do televisor, e exibia-os com um orgulho a que não faltava o meio sorriso do divertimento.

Os restos mortais de Aquilino, a quem me sinto ligado pelo mais duradouro dos convívios, o que resulta do encontro na página impressa, esses pelo menos ninguém os vê.

Expresso (08-10-2007)
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MensagemAssunto: Re: Em nome da Escrita Portuguesa   Sab Nov 24, 2007 3:06 am

Doença não impede Saramago de visitar a sua exposição


Nobel surgiu em cadeira de rodas na inauguração, em Lanzarote


O espanto dominou ontem em Lanzarote a inauguração da exposição "La Consistencia de los Sueños" sobre a vida e a obra de José Saramago. Espanto porque ninguém esperava ver o escritor chegar numa cadeira de rodas, com um ar tão visivelmente abatido e debilitado.

Espanto porque os convidados e o público que visitaram a mostra não contavam encontrar nos 700 m2 de exposição tantas surpresas sobre a carreira de um dos mais conhecidos portugueses no mundo.

Mesmo doente, José Saramago fez questão de estar presente e de, a meio da visita, dizer ao DN que "não esperava rever tantas das suas memórias" e de se mostrar surpreendido pelo "grande aproveitamento das tecnologias audiovisuais" na montagem de uma exposição que mostra pela primeira vez a totalidade dos seus manuscritos, originais, notas, apontamentos e toda a pesquisa que realizou para a produção literária que lhe valeu o Prémio Nobel.

Saramago ainda desabafou, perante a visão das imagens da Azinhaga, sua terra natal, e do rio Almonda: "Ainda resta alguma coisa disto?"

No fim da visita à primeira sala, uma salva de palmas brindou o escritor, que não conseguia esconder a emoção perante o que observava e de, ao mesmo tempo, corrigir uma ou outra data que achava ser mais correcta. A apresentação foi feita pelo comissário da exposição, Fernando Gómez Aguilera, que foi seguido de perto por centenas de convidados.

Pilar del Río, a mulher do escritor, não foi capaz de definir a sua opinião sobre a exposição por "estar fascinada" e necessitar de a ver com um mínimo de atenção, situação que ontem era impossível, tal o número de pessoas que queriam estar com o autor.

Hoje, apesar do seu estado de saúde, José Saramago deverá estar presente na inauguração da terceira sala da exposição, adiada um dia por especial pedido do ministro da Cultura espanhol, César Antonio Molina, de forma a poder estar presente nesta homenagem ao escritor.

DN (24-11-2007)
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Xô Esquerda

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MensagemAssunto: Re: Em nome da Escrita Portuguesa   Sex Fev 01, 2008 4:49 am

Contrato de comodato foi aprovado

Acervo de António Lobo Antunes a caminho de Torres Novas

A Câmara de Torres Novas aprovou quinta-feira a minuta do 'contrato de comodato' a assinar com António Lobo Antunes para utilização do acervo do escritor na criação da Casa da Literatura, no actual edifício dos Paços do Concelho

O protocolo, aprovado por unanimidade em reunião privada do executivo camarário, prevê a cedência do acervo de Lobo Antunes - «primeiras edições de obras da sua autoria, manuscritos e objectos pessoais, fotografia, pinturas, biblioteca pessoal, bem como prémios e condecorações» - por um período de 20 anos a partir da abertura da Casa da Literatura.

O documento estabelece um prazo de quatro anos, a partir da assinatura do contrato, para a abertura da Casa da Literatura, que ficará no actual edifício dos Paços do Concelho, depois de obras de beneficiação e adaptação «em condições de qualidade e segurança».

Os objectos, cedidos gratuitamente pelo período estabelecido, que pode ser objecto de renovação, integrarão «zonas de exposição e centros de documentação que permitam a divulgação ao público da vida e obra do escritor, não podendo ser-lhes dado destino diferente, sem prévio acordo escrito» de Lobo Antunes.

A Casa da Literatura deverá ainda acolher a futura Fundação António Lobo Antunes.

No protocolo é apresentada como preocupação a «salvaguarda e valorização do património cultural constituído pelo acervo», considerado de «interesse nacional», sendo intenção contribuir para uma melhor divulgação da obra de Lobo Antunes.

O objectivo da cedência do acervo é a «criação de um espaço que promova actividades culturais ligadas à vida e obra» do escritor «e de outros vultos das letras, como por exemplo colóquios, conferências, palestras, debates, reuniões e exposições, sendo um espaço de encontros e criação literários (nomeadamente residências literárias)».

A autarquia insere este acordo na política de «revitalização cultural com a aposta no Projecto Cidade Criativa, que passa, designadamente, pela recolha, conservação e disponibilização ao público de novos acervos artísticos e literários de relevo».

A Lobo Antunes fica garantido o «acesso privilegiado e vistoria» do acervo sempre que entenda, podendo realizar «quaisquer reproduções ou benfeitorias», comprometendo-se a autarquia a ter todos os objectos seguros.

No âmbito do acordo, a Câmara de Torres Novas compromete-se ainda a ceder, a título de empréstimo por tempo indeterminado, o edifício da antiga escola do primeiro ciclo de Almonda «para habitação de António Lobo Antunes», responsabilizando-se pela adaptação do seu interior a esse fim.

O acordo prevê a constituição de uma comissão de arbitragem em caso de «divergências ou litígios».

Lusa / SOL
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Xô Esquerda

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MensagemAssunto: Re: Em nome da Escrita Portuguesa   Qua Fev 20, 2008 12:19 pm

Lobo Antunes recebe galardão sul-americano


É já depois de amanhã que António Lobo Antunes vai receber o Prémio José Donoso, considerado um dos mais relevantes galardões no panorama literário ibero--americano. A cerimónia está marcada para o Instituto Cervantes, em Lisboa, às 18 horas.

Anunciado em finais de 2006, o prémio só agora vai ser entregue ao romancista, devido aos problemas de saúde por que passou no ano passado.

Organizada pela Universidade de Talca, no Chile, a distinção é anualmente outorgada desde 2001, de acordo com um júri internacional, à obra de um destacado escritor ibero-americano.

Pela primeira vez, no entanto, o prémio será atribuído a um escritor ibérico, cabendo essa distinção a António Lobo Antunes.

Nas edições anteriores, o prémio foi entregue a José Emílio Pacheco (mexicano, 2001), Beatriz Sarlo (argentina, 2002), Isabel Allende (chilena, 2003), António Cisneros (peruano, 2004), Ricardo Piglia (argentino, 2005) e Miguel Barnet (cubano, 2007).

No comunicado, o júri considerou que o autor do recente "O meu nome é legião" faz "uma crítica forte à identidade portuguesa, não isenta, no entanto, de amor ao seu país", além de "captar com profundidade e originalidade o papel das culturas periféricas no mundo contemporâneo".

Já depois do anúncio da distinção sul-americana, Lobo Antunes viu ser-lhe entregue o Prémio Camões, instituído pelos governos do Brasil e Portugal, em 1988, com o o objectivo de destacar autores que tenham contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa.

jn
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