António Guterres, alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, alertou hoje para situações de crise global, considerando que, «da maneira como a comunidade internacional está a olhar para o mundo, não iremos longe».
O ex-primeiro-ministro português falava no final uma visita ao Fundão e à aldeia das Donas, onde passou parte da sua infância, onde foi homenageado pela Câmara e Junta de Freguesia locais.
António Guterres mostrou-se preocupado com a subida do preço dos alimentos, da energia, a desaceleração da economia mundial, «que se faz sentir sobretudo nos mais pobres» e as alterações climáticas.
Tudo isto a par de conflitos «no Afeganistão, Iraque, Palestina, Sudão». «E esperemos que não no Líbano», acrescentou.
«Há uma série de ameaças que já se concretizaram ou estão como uma espada sobre as nossas cabeças e que nos devem levar a pensar como é possível olhar para o mundo de outra maneira», referiu.
«Pela maneira como estamos, como a comunidade internacional está a olhar para o mundo, não iremos longe», destacou António Guterres.
«O fosso entre ricos e pobres é um dos problemas mais dramáticos da globalização», acrescentou, recordando que foi na infância nas Donas que primeiro tomou consciência de desigualdades sociais.
«As recordações da primeira infância são as que nos marcam para a vida toda e eu ainda muito pequeno pude sentir o que era a injustiça».
«Eu vinha de uma família privilegiada, não éramos ricos mas vivíamos bem, e muitos dos meus amigos andavam de pé descalço, não comiam carne todos os dias nem tiveram acesso à educação. Isso marcou-me para o resto da vida», referiu.
Uma marca que o havia de levar à intervenção política.
Hoje foi homenageado pela Câmara do Fundão e descerrou quatro placas com o seu próprio nome, atribuído a ruas à entrada do Fundão e das Donas, numa via que dá acesso à auto-estrada A23 e que foi construída no seu mandato como primeiro-ministro.
A quarta placa foi descerrada no espaço museológico com o seu nome, no edifício da Junta de Freguesia das Donas, onde passam a ficar expostas 75 das peças que lhe foram entregues enquanto primeiro-ministro e que doou à autarquia.
Entre as peças estão presépios em madrepérola oferecidos por Yasser Arafat, um fato e capacete de piloto da Força Aérea com o nome gravado de António Guterres e uma bandeira portuguesa que lhe foi entregue em Timor-Leste por um dos residentes, após a autonomia.
«Estas homenagens têm um significado muito profundo. Trata-se de algo de grande simplicidade e autenticidade. É aqui que estão as minhas raízes e a minha identidade», concluiu.
Diário Digital / Lusa
04-05-2008 15:16:00