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 A Expo, em Lisboa

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ypsi



Mensagens : 889
Data de inscrição : 15/09/2007

MensagemAssunto: A Expo, em Lisboa   Sab Dez 01, 2007 5:52 am

O que resta da EXPO


DE INVERNO Lisboa é uma cidade mais triste do que o habitual. E mais pobre. O azul-ferrete do céu fica enevoado e opaco e põe nas caras e nas ruas e nos prédios e árvores uma sombra de decrepitude. Ficamos todos mais velhos, nós e a cidade.

Se me perguntarem o que falta a Lisboa, direi que lhe falta alegria.

Lisboa é como um espírito irritado. Não existe uma avenida, um caminho, uma rua, um passeio, por onde se possa andar sem levar com a cacofonia dos carros e o zumbido do trânsito, uma distribuição constante de pessoas pela cidade, para dentro e para fora da cidade, como se Lisboa fosse um apeadeiro ou uma estação.

Passar um fim-de-semana em Barcelona, que neste momento fica mais barato, em "low cost", do que ir ao Algarve a pagar portagens, dá-nos uma visão do que é que em Lisboa correu mal depois da EXPO.

Barcelona era uma cidade escura e operária no final do século XIX. No século XX continuou a ser uma cidade escura e operária mas pairava no ar um perfume de boémia e vida artística que aguentou a cidade nos períodos menos brilhantes.

Com os Jogos Olímpicos, Barcelona mudou e mudou para sempre. Aproveitando ao máximo o dinheiro gasto nas infra-estruturas e modernização da cidade, dos acessos aos complexos arquitectónicos, das largas avenidas às ruas estreitas da beira-mar, da alta à baixa, Barcelona valorizou a relação com o Mediterrâneo.

O porto de Barcelona, com os seus contentores e navios, guindastes e gruas, dragas e rebocadores, não está dentro da cidade e não desenha as linhas que definem o horizonte da cidade, como faz o Porto de Lisboa, muito menos se arroga o direito de esconder o rio dos olhos dos lisboetas e de os privar da melhor coisa que têm, o Tejo e tudo, como no verso de Pessoa. Os funiculares e teleféricos de Barcelona ampliam o efeito.

O caminho entre a EXPO e o Terreiro do Paço, que se chamou "caminho do Oriente" e se previa rasgado e aberto, está novamente fechado e vedado. Arame farpado, contentores, armazéns, montanhas de areia e um rio proibido.

A EXPO é um subúrbio fisicamente desligado da cidade, não existe continuidade estética.

Na zona de Belém, o Porto de Lisboa resolveu, no que chama projecto de "requalificação", construir um mamarracho, não muito longe dos Jerónimos e da Torre de Belém, que é um atentado à paisagem e que tapa o rio.

Eu espero que o monstro seja demolido, como deve ser.

Espero também que esta Câmara meta o Porto de Lisboa na ordem, o que nenhuma administração da cidade até hoje conseguiu fazer, e espero que o Governo perceba que, se não libertar o rio mata a cidade.

Caminhando então para a EXPO, verificamos que a marina, projecto no qual foram investidos milhões, entrou em falência. Nem restaurantes, nem cafés, nem barcos, nada. Tudo está deserto e o vento faz estremecer a água do rio e sopra nos pontões que destilam abandono e melancolia.

Junto ao Oceanário, o deserto avança. Raros e maus restaurantes, quase nenhumas esplanadas, e uma frente ribeirinha desaproveitada. Ao optar por instalar um centro comercial gigante no meio do recinto, isto tinha que acontecer.

O centro comercial sugou toda a vida das ruas e das imediações, e toda a gente converge para a luz artificial e as lojas e restaurantes, deixando de lado um espaço ao ar livre que está vazio e rodeado de casas.

Quanto às casas, a arquitectura é má, às vezes péssima, e não transcende a arquitectura de subúrbio com "upgrade" para burgueses.

Suponho que não era nada daquilo que António Mega Ferreira tinha na cabeça quando imaginou a EXPO.

Como sempre, do império a um recinto de feira, somos maus no "pós", no depois, no que fica.

O que ficou, na zona da marina, é uma vergonha nacional.

E nem vale a pena falar do Pavilhão de Portugal de Siza Vieira, ninguém sabe o que fazer com a jóia da coroa.

Ficou-nos aquela avenidazinha com repuxos, um pouco ridícula, atravessada por funcionários em hora de almoço e algumas crianças de escolas que põem a única nota de alegria na depressão urbana. Uma massa apressada e descuidada.

O sucesso único da EXPO é o Pavilhão Atlântico.

Curiosamente, os habitantes desta paisagem apocalíptica e transitória parecem apreciar o "bairro" que de "bairro" nada tem.

Regressando a Barcelona, no final das Ramblas vemos o exemplo perfeito de como uma cidade se abraça à água e a um complexo comercial, o Mare Magnum, sem perder qualidade nem identidade. Junto às torres da beira-mar, que mostram como se pode construir em altura à beira-mar acrescentando beleza, espraia-se uma frente marítima cheia de restaurantes e esplanadas cheios quando faz um frio de rachar. E passeia-se sem interrupções durante quilómetros pela beira do Mediterrâneo.

Entre a marina da EXPO e a marina de Barcelona, vai toda a diferença entre planear uma cidade ou entregá-la à ganância dos especuladores imobiliários e do Porto de Lisboa.

A diferença entre alegrar uma cidade ou deixá-la nas mãos dos patos-bravos.

Não existe em Lisboa um grande mercado decente, uma zona comercial decente, um grande jardim decente.

E a EXPO falhou.

A zona oriental está melhor do que antes?

Sem dúvida, mas o projecto não era esse.

Era fazer, ali, um lugar que honrasse o rio e os lisboetas
.

Clara Ferreira Alves

Expresso - 26-11-2007
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MensagemAssunto: Re: A Expo, em Lisboa   Sab Dez 01, 2007 6:08 am

Mami escreveu:

E nem vale a pena falar do Pavilhão de Portugal de Siza Vieira, ninguém sabe o que fazer com a jóia da coroa.

Um dia fui visitar o dito pavilhão, guiado pelo seu criador, e apercebi-me que ficou ali um mono.
Não tenho palavras para descrever os "ressentimentos" Do Mestre (á quem goste dele, e quem não goste, eu gosto).

Uma coisa é certa, trata os "bois" pelo nome.
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MensagemAssunto: Re: A Expo, em Lisboa   Sab Dez 01, 2007 1:50 pm

Estadios, EXPO e estradas, SAO as GRANDES obras destes XUXAS-XUXIAL-DEMOCROITES, e agora o AEROPORTO!!! E nao passa disto!!! EMPREGOS , NAO HA!!! Crescimento economico, NAO HA!!! Mas o POVO merece!!!
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MensagemAssunto: Re: A Expo, em Lisboa   

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