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 Guerra Colonial

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Cogito, ergo sun



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MensagemAssunto: Guerra Colonial   Ter Abr 22, 2008 7:40 am

Pacheco Pereira, como todos os seus defeitos, é um investigador. Bem documentado. Fez a melhor história do PCP que, embora contestado pelos seus dirigentes, é lida e relida pelos mesmos e considerada uma referência.

Publicou no Abrupto um comentário sobre a reportagem da guerra colonial feita por Joaquim Furtado. Não me vou repetir mais nesse tema. Mas noutro que ele refere no fim e eu reproduzo. Os desertores. O Lagostas, há dias, insultou-me não me lembro bem em que termos por não ter desertado. Vindo de quem vem não me incomodou. Mas vale a pena rever o assunto. Havia 2 tendências. Uma de que se devia desertar e outra, a do PCP, que não. Que era dentro de exército, enxameado de milicianos com outra formação e outra liberdade de pensamento, que se devia tentar dar a volta. E verificou-se que resultou.

Optei pela segunda. Não só pelos motivos evocados. Desertar não era fácil. Muitas vezes era cortar com a família, quando a mesma era tradicional e conservadora, para sempre. Depois sair não era fácil. O lagosta desconhece que quem não tinha feito o serviço militar não podia tirar o passaporte. Sair sem ele era difícil e caro. Pagavam-se fortunas aos passadores e muitas vezes eram Pides disfarçados. Por último sobreviver no destino. Conheci vários. Por coincidência (ou talvez não) eram filhos da média burguesia endinheirada que lhes asseguravam uma vida decente. Não conheço nenhum desertor pobre. Ou mesmo remediado. A começar por Manuel Alegre. Ou Pacheco Pereira se tivesse de desertar.




(...) Como muitos jovens da minha geração que combatiam o regime de Salazar e Caetano, nunca me passou pela cabeça fazer a guerra. Sabia que, a uma determinada altura, o dilema se colocava e nunca duvidei um segundo sobre o que fazer quando tivesse que prestar serviço militar: fosse em que circunstância fosse, como refractário ou como desertor, iria para o estrangeiro ou para a "sombra" da clandestinidade. Não era sequer um dilema, era uma certeza, sobre a qual nunca hesitei. A guerra colonial não me colocava nenhum dilema, não me "interpelava", sabia o que devia fazer.

Hoje, como não há memória, pode-se pensar que este caminho que milhares de jovens da minha geração tomaram era fácil e cómodo. Não era. Também não era o medo da guerra, porque de um modo geral havia mais coragem em recusá-la do que em fazê-la, era mais um acto de vontade recusá-la do que seguir na onda da obrigação legal, mesmo que contrafeita.

<BLOCKQUOTE>A frase anterior resulta ambígua e permite críticas como a que fez Vítor Dias no Tempo das Cerejas, que são legítimas devido exactamente à frase não ter ficado clara. Não era minha intenção fazer qualquer medição de coragem que seria sempre absurda. O que eu queria dizer é que, no momento da decisão, de ir ou não, a última escolha implicava de imediato mais consequências, a começar pelo facto de se estar a cometer um acto ilegal que interrompia de imediato a possibilidade de se continuar uma vida normal . A decisão de ir era mais passiva. Não penso que neste dilema ir / desertar se possa sobrepor o par coragem / cobardia, mas penso que a decisão consciente de recusa da guerra, com todas as suas consequências, era uma decisão corajosa.

Claro que aqui há, nesta questão levantada por Vítor Dias a sobrevivência de uma polémica, que só os que padecem de memória excessiva se lembram hoje, entre o PCP e a extrema-esquerda na altura, sobre o modo como se devia actuar contra a guerra, ir ou não à tropa, ser refractário ou desertor, desertar onde e como e com quê (com as armas por exemplo).
</BLOCKQUOTE>
O caminho da emigração política era complicado, implicava riscos consideráveis para se passar a fronteira, ou as fronteiras, porque havia duas antes de chegar a França, ambas perigosas. Fronteiras que se passava indocumentado, porque a maioria não era autorizada a ter passaporte quando estava em idade de cumprir o serviço militar.




Era o exacto oposto daquilo que hoje se chama uma "carreira", era um caminho de imprevisibilidades. Era, como diziam os pais sábios, "estragar a tua vida". Rompidos os laços com Portugal, que se presumiam sem retorno, o que é que se podia fazer lá fora, muitas vezes com poucos recursos e em ruptura também com a família? No Portugal do início dos anos sessenta, o "estrangeiro" era uma incógnita para um país periférico e isolado e era uma aventura ir para lá. Muitos dos que recusaram a guerra viveram com muitas dificuldades, trabalharam como contínuos, em fábricas, em restaurantes, em hotéis, em aviários, numa profusão de profissões menores e só alguns estudavam com as bolsas que eram dadas pelos países de acolhimento. É verdade que não durou muito, mas ninguém sabia que não iria durar muito. Alguns ficaram para sempre e vivem na Holanda, na França, na Suécia, na Itália, no Reino Unido. Para eles, Portugal perdeu-se de vez.

O que é que movia quem se recusava a fazer a guerra colonial? Ideologia, "anticolonialismo", ser contra Salazar, comunismo, pacifismo, objecção de consciência? De tudo um pouco, mas, bem vistas as coisas, a esta distância, é a mesma atitude que vejo nos homens de 1961 que aparecem nesta série televisiva: patriotismo. Por isso, uma natural proximidade devia envolver os homens desses dois mundos, cada um patriota a seu modo, acima de tudo na disponibilidade de viver uma vida difícil e perigosa por alguma coisa que não era individual, mas estava acima do conforto de cada um.
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MensagemAssunto: Re: Guerra Colonial   Qua Abr 23, 2008 7:21 am

A tentativa de limpar a fachada, está bem presente neste escrito. Melhor fora estar calado. Mas a falta de vergonha não tem limites.
Para mal deste país, são aqueles que nessa época se recusaram a combater, que agora nos governam auferindo por vezes rendimentos escandalosos pagos com os nossos impostos.
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